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Marcos Antonio Manfredini
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ARTIGOS E NOTÍCIAS SOBRE DEPENDÊNCIA QUÍMICA
A ciência já provou: mau humor pode abalar sua saúde e até tratamentos

Se você é do tipo pessimista ou rabugento, eis um motivo de peso para povoar a cabeça com pensamentos mais positivos: a sua saúde. Sim, as evidências apontam que pessoas dominadas pelas emoções negativas têm mais risco de desenvolver uma série de doenças e até de ter um piripaque potencialmente fatal.

Veja este estudo publicado em 2014 no Stroke, periódico da Associação Americana de Cardiologia (AHA). Os pesquisadores avaliaram os níveis de estresse, sintomas depressivos, raiva e hostilidade de mais de 6 mil pessoas entre os 45 e os 84 anos e acompanharam a saúde do grupo pelos anos seguintes.

Eles notaram que o índice de derrames e ataques isquêmicos transitórios -entupimento temporário de um vaso sanguíneo do cérebro que é um precursor do AVC- era significativamente maior em indivíduos mais tristes, estressados e hostis. Embora os mecanismos por trás dessa relação não estejam totalmente claros, é fato que pessimistas costumam estar tensos. E a tensão constante favorece o aparecimento de distúrbios como o diabetes e a hipertensão arterial.

Estresse aumenta nível de cortisol no corpo

“O estresse crônico aumenta o nível de cortisol em circulação, hormônio que financia inflamações e, a longo prazo, afeta até a imunidade”, explica Paulo Camiz, geriatra e clínico geral do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Sem contar que, sob a perspectiva sempre negativa, a autoestima pode ser abalada e, aí, tendemos a cuidar menos de nós e, consequentemente, da saúde.

Ninguém está dizendo que o certo é ser feliz toda hora --até mesmo porque, sabemos, isso é praticamente impossível. O problema é quando os pensamentos negativos como hostilidade, cinismo, agressividade e outros passam a dominar a mente. “Se eles prevalecem, podem levar a uma depressão no futuro”, alerta Camiz. E ela, como se sabe, é outro fator de risco importante para doenças cardiovasculares.

O lado bom do mau humor

Para os emburrados, vale esclarecer antes de tudo que nem todo mau humor é ruim. Pelo contrário, aliás. “Existem pessoas que são mal-humoradas naturalmente e, no geral, todo pensamento inclui também um lado negativo”, explica Luiz Scocca, psiquiatra membro da AAP (Associação Americana de Psiquiatria).

Segundo Scocca, ele pode ainda nos deixar mais focados, concentrados. Fora que não há nada de errado em sentir-se mal, triste, irritado, frustrado ou pessimista. “Há uma ilusão de que devemos estar contentes o tempo todo, satisfeitos, mas isso é impraticável, um conceito do qual devemos nos livrar”, aponta o médico.

Rir é o melhor remédio

Por outro lado, evidências a favor do pensamento positivo não faltam. E essa relação já é conhecida há anos. Em 2009, a mesma AHA publicou um estudo enorme, feito com quase 100 mil mulheres, dizendo que as otimistas tinham menos incidência de doenças cardiovasculares -- 43 casos a cada 10 mil mulheres, contra 60 no grupo das mais pessimistas.

As justificativas para esse elo também não estão bem estabelecidas, mas não há dúvidas de que, sim, otimistas vivem mais e melhor. “Uma pessoa otimista não se deixa abater e o corpo dela acaba de se estruturando de acordo com isso”, diz Camiz. O efeito está relacionado à resiliência, nossa capacidade de se recuperar das adversidades da vida.

O riso em si já trabalha em nome da saúde e bem-estar. “Dar risada libera endorfinas, neurotransmissores que têm efeito semelhante ao de um analgésico”, destaca Fábio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas da USP. Não só as gargalhadas combatem a dor como podem ainda proteger o coração. Neste trabalho de 2016 da Universidade de Tóquio, no Japão, mais de 20 mil pessoas de 65 anos tiveram a saúde e a frequência das risadas estudadas.

E, mesmo excluindo outros fatores de risco como excesso de peso, depressão e hipertensão, a prevalência de males cardíacos entre os que quase nunca riam era mais alta do que a dos participantes que relataram rir todos os dias.

Fonte: UOL - 16/04/2018

A mera presença do smartphone afeta a nossa capacidade cognitiva

A onipresença do smartphone já é notória. Em restaurantes, bares, reuniões familiares e até em locais formais, como igrejas e salas de aula em universidades, alguém estará mexendo em um. As vantagens desse aparelho são inegáveis, mas cada vez mais a pesquisa se concentra em um lado menos nobre do smartphone: no poder de destruir a concentração que ele tem.

Em um estudo publicado em abril de 2017, pesquisadores da Universidade de Chicago liderados pelo doutor Adrian F. Ward fizeram testes cognitivos simples com cerca de 800 voluntários. No primeiro, eles tinham que fazer contas e memorizar letras aleatórias ao mesmo tempo; no segundo, os participantes viam um conjunto de imagens que formavam um padrão incompleto e escolhiam uma imagem que melhor completasse o padrão.

Os testes foram feitos por três grupos. Um deles mantinha o celular sobre a mesa, com a tela virada para baixo; o outro, no bolso ou na bolsa; e o terceiro, em outra sala, longe da vista. Em todas as situações, alertas vibratórios e sonoros eram desligados de antemão.

Os resultados foram “chocantes”, segundo os pesquisadores. Os participantes que tiveram seus celulares colocados em outra sala se saíram muito melhor que os que estavam com o aparelho por perto. Para esses, a mera presença do smartphone, mesmo desligado, teve um impacto significativo na capacidade cognitiva, comparável ao dos efeitos da privação de sono.

Os pesquisadores, que batizaram essa desatenção de “fadiga cerebral”, justificam pesquisas do tipo com a natureza inédita do smartphone: “ao longo da história humana,” escrevem na conclusão, “a maioria das inovações ocupou um espaço definido nas vidas dos consumidores; elas eram restritas pelas funções que desempenhavam e pelos locais que habitavam. Smartphones transcendem essas limitações. Eles são companhias constantes dos consumidores, oferecendo conexão sem precedentes à informação, entretenimento e a outros seres humanos”.

Não por acaso, os efeitos na cognição se acentuam na mesma medida em que a dependência do smartphone aumenta.

Solução e problema

Essa natureza foi objeto de um paper do pesquisador Sharif Mowlabocus, publicado em outubro de 2016 na revista científica digital First Monday. Nele, o autor argumenta que o smartphone é, ao mesmo tempo, “o dispositivo que apoia o ‘fetiche da velocidade’ do capitalismo tardio” e o que “oferece um mecanismo de escape dele (por mais ilusório que esse escape possa ser)”. O smartphone seria, então, a solução e parte do problema.

Não faz uma década que o smartphone surgiu e se tornou o dispositivo tecnológico mais popular da história — já somos quase três bilhões de usuários e a tendência é que, nos próximos anos, todos os seres humanos adultos tenham um. Como dizem Ward e seus colegas, “o smartphone de alguém é mais do que um celular, uma câmera ou uma coleção de apps. Ele é aquela coisa que conecta tudo — o centro de um mundo conectado. A presença do smartphone de alguém habilita o acesso sob demanda a informação, entretenimento, estímulos sociais e outras coisas. Entretanto, nossa pesquisa sugere que esses benefícios — e a dependência que eles engendram — possa ter um custo cognitivo.

Fonte: Gazeta do Povo - 07/04/2018

Escócia impõe preço mínimo ao álcool para combater consumo excessivo

Terra dos melhores uísques do mundo, a Escócia anda muito preocupada com os excessos do consumo de álcool entre os seus cidadãos.

Apaixonados por seus formidáveis pubs e bares, os escoceses estão entre os maiores consumidores de bebidas alcoólicas do mundo. Cada adulto no país toma em média o equivalente a 477 pints de cerveja por ano ou algo como 271 litros.

Toda essa dedicação etílica pode ajudar a manter o famoso bom humor dos escoceses, mas também é responsável por vários problemas de saúde e altos índices de dependência.

Para tentar mudar essa situação, o governo escocês decidiu agir. A partir de maio, a Escócia será o primeiro país da Europa ocidental a introduzir um preço mínimo para as bebidas alcoólicas.

Cada unidade de álcool (o equivalente a um copo pequeno de vinho ou meio pint de cerveja) vai custar ao consumidor pelo menos 50 pence (50 centavos de libra esterlina cerca de R$ 2,29 por unidade).

Com a medida, o preço das bebidas subirá para os consumidores nos supermercados e bares. Segundo um estudo do Institute for Fiscal Studies, cerca de 70% de todo o álcool vendido em lojas e supermercados no Reino Unido custa menos de 50 pence por unidade. Em alguns casos, cada unidade pode custar apenas 18 pence (R$ 0,82). Quase um incentivo direto para o consumo.

Com os aumentos, uma garrafa de uísque barato, com 28 unidades de álcool e 700 ml, vai passar a custar pelo menos 14 libras esterlinas (ou R$ 64,14). A cidra extraforte, muito consumida por bebedores pesados no país, passará a custar pelo menos 3,75 libras esterlinas (ou R$ 17,18) por litro.

Segundo os estudos do governo escocês, o aumento do preço do álcool vai limitar bastante o consumo do produto entre as pessoas mais pobres que também são, no caso da Escócia, as mais afetadas por casos de alcoolismo e por problemas de saúde relacionados. Com isso, espera-se uma diminuição razoável nas vendas no país e uma melhora nos indicadores de saúde nos próximos anos.

A decisão foi uma alternativa à ideia tradicional de simplesmente aumentar os impostos sobre o álcool, medida adotada em vários países que tentam conter o consumo do produto. No caso, o governo escocês nem pode considerar essa possibilidade, já que aumentos de impostos sobre produtos são uma prerrogativa apenas do governo central do Reino Unido e não das autoridades locais de Escócia, País de Gales ou Irlanda do Norte.

Mas o preço mínimo pode ter um efeito até maior do que a taxação pura e simples sobre o álcool. Um dos motivos é que especialistas dizem que a indústria de bebidas poderia simplesmente manter os preços de alguns de seus produtos mais baratos, subsidiando-os para não perder fatia de mercado. A diferença poderia ser simplesmente repassada para outros produtos mais caros, consumidos por pessoas mais ricas e menos sensíveis a variações de preço.

Caso isso acontecesse, não haveria de fato uma diminuição sensível do consumo de álcool entre a população. O que pode acontecer com a nova medida.

Coincidência ou não, a indústria de bebidas combateu a ideia do preço mínimo nas cortes por cinco anos. Até perder, em novembro do ano passado, numa decisão da Suprema Corte britânica.

Agora, os governos do Reino Unido, do País de Gales e da Irlanda do Norte também começam a estudar medidas semelhantes. Tudo para tentar fazer com que os britânicos, finalmente, comecem a beber com mais moderação.

Américo Martins
Jornalista escreve sobre a vida em Londres, onde mora pela terceira vez, num total de 15 anos.

Fonte: Folha Online - 29/03/2018

EUA cercam farmacêuticas em tribunais após milhares de mortes por opiáceos

Mais de 400 ações acusam fabricantes e distribuidores de mentir sobre o poder de adicção dos analgésicos.

Os Estados Unidos declararam guerra às empresas que estão por trás da série de mortes pelo consumo de opiáceos. Mais de 400 cidades, condados e organizações interpuseram uma ação conjunta contra os fabricantes e distribuidores dos potentes analgésicos. Quase todos os Estados lançaram pesquisas contra a indústria farmacêutica e vários deles cogitam unir-se ao litígio coletivo. O Governo federal apoia esse caminho e não descarta apresentar sua própria denúncia. Empresas gigantescas são acusadas de publicidade enganosa e de esconder dos consumidores o potencial de vício dos comprimidos de opiáceos. De serem cúmplices de uma feroz epidemia que assola os EUA: todo dia morrem de overdose mais de 150 pessoas. O processo evoca a ofensiva judicial dos anos noventa contra os gigantes da indústria de tabaco.

“É uma crise, uma epidemia. Todo mundo sabe, todo mundo sente, então acredito que todos devemos começar a trabalhar em conjunto”, diz em uma entrevista o juiz Dan Aaron Polster. Temido pelas poderosas indústrias farmacêuticas. Admirado por quem conhece em primeira mão a sangria de mortes pelo consumo de opiáceos. Polster tem um dos trabalhos mais difíceis dos EUA. Em sua mesa no tribunal federal do Distrito Norte de Ohio, em Cleveland, se acumulam 434 ações contra a indústria farmacêutica. “Meu objetivo é alterar a trajetória desta crise. Não digo que vamos solucioná-la este ano, mas precisamos dar alguns passos. Mais gente está ficando viciada. É inaceitável”, afirma.

Polster, de 66 anos, optou por um enfoque heterodoxo desde que em dezembro uma comissão judicial decidiu agrupar em seu tribunal quase todos os litígios dos EUA relacionados às receitas de opiáceos. O juiz comunicou às partes que seu objetivo é obter um acordo em vez de iniciar um longo e agressivo julgamento, o que prefere a defesa dos grandes fabricantes, distribuidores e vendedores de fármacos. A estratégia se compara ao acordo de 1998 que levou as grandes empresas de fumo a pagar uma indenização milionária (206 bilhões de dólares, ou cerca de 660 bilhões de reais) pelos efeitos nocivos do tabaco. O pacto também incluiu proibição à publicidade de cigarros e advertências públicas sobre seus riscos para a saúde.

As estatísticas são assustadoras. Em 2016, último ano com números fechados, morreram cerca de 64.000 norte-americanos por overdose. Cerca de 75% foram provocadas pelo abuso de comprimidos analgésicos, heroína ou fentanil. Os recordes são quebrados todos os anos. A estimativa provisória de 2017 chega a 66.000 mortes. Para se ter uma ideia do alcance do drama, mais de 58.000 norte-americanos morreram em toda a Guerra do Vietnã, 55.000 em acidentes de carro em 1972, um ano recorde, e 43.000 durante o ápice da epidemia de Aids em 1995. A crise dos opiáceos custou ao Governo norte-americano cerca de um bilhão de dólares (3,2 bilhões de reais) desde 2001.

As mortes por overdose de heroína triplicaram entre 2010 e 2014 nos EUA. Cerca de 435.000 cidadãos afirmam ter consumido a droga nos últimos 30 dias, segundo as pesquisas disponíveis. Por trás está uma poderosa conexão entre fármacos e heroína. Quatro em cada cinco novos consumidores de heroína afirmam ter abusado antes de remédios contra a dor. Quando ficam sem receitas para comprá-los, o desespero os leva à droga ilegal. E muitos olhares apontam para a atuação de médicos, farmacêuticos e outros profissionais de saúde: em 1992, foram prescritas 79 milhões de receitas de opiáceos no país, em 2012 foram 217 milhões.

O Governo de Donald Trump declarou a crise dos opiáceos uma emergência de saúde pública. E o juiz Polster aponta a raiz da tragédia. Seu objetivo é conseguir soluções tangíveis de curto prazo que não só impliquem compensações financeiras mas mudanças radicais no setor. “Quando se dão alguns passos, em seguida é possível dar outros. Em geral, é assim que se soluciona um problema muito complexo. Você não fica sentado esperando que alguém encontre uma grande solução para tudo”, afirma.

A pressão diante de uma indústria vigorosa mas que se sabe no olho do furacão está começando a dar mais frutos. Dez dias antes de uma das sessões judiciais, a Purdue Pharma, fabricante do OxyContin, o opiáceo mais conhecido, anunciou em fevereiro que pararia de divulgar seus comprimidos a médicos e cortaria pela metade sua equipe comercial.

Greg Williams, vice-presidente da Facing Addiction, uma organização que ajuda viciados, considera o passo insuficiente. “Eles e outros fabricantes e distribuidores de opiáceos devem a nossas comunidades milhares de milhões de dólares em reparação”, sustenta. “Precisamos de financiamento para educação pública, profissionais de saúde, prevenção e tratamento.”

Anna Lembke, especialista em adicções da Universidade de Stanford, que testemunhou para o juiz de Cleveland, concorda que o anúncio da Purdue representa “uma gota no oceano” do conjunto da crise dos opiáceos. Mas destaca que “simbolicamente é muito importante” porque representa, depois de anos de negação, uma admissão implícita da farmacêutica quanto a seu impacto sobre o que os médicos estão receitando.

Na ação judicial em massa, acusa-se a Purdue e outros fabricantes, como Johnson & Johnson, de divulgar durante anos seus opiáceos apesar de conhecer perfeitamente seu potencial aditivo. As empresas distribuidoras são denunciadas por enviar quantidades enormes de fármacos sem avisar as autoridades; e as farmacêuticas, de não esclarecer o suficiente aos pacientes quanto ao produto que estavam comprando.

Todos alegam que os fármacos foram autorizados pelo Governo e que são os médicos quem receitam. No entanto, os críticos argumentam que os médicos não recebem informações suficientes sobre os riscos. E as empresas financiaram lobbies médicos que minimizam os possíveis problemas dos comprimidos, segundo um relatório do Senado.

De fato, em 2007 a Purdue se declarou culpada diante de um juiz federal de enganar médicos e pacientes sobre o risco de adicção e o potencial abuso de OxyContin depois de uma investigação que terminou em 2001. Pagou uma multa de 600 milhões de dólares (quase 2 bilhões de reais). O jornal Los Angeles Times revelou em 2016 que, durante duas décadas, a Purdue sabia que seu fármaco poderia ter um efeito mais breve do que o anunciado, o que aumenta o risco de adicção, mas escondeu para não perder sua participação de mercado. O OxyContin representa 80% das vendas da empresa, a um valor de 1,7 bilhões de dólares (cerca de 5,5 bilhões de reais) em 2017.

Um porta-voz da Purdue não respondeu as perguntas deste jornal.

A empresa deu início nas últimas semanas a uma campanha para tentar melhorar sua imagem. Publicou anúncios nos principais jornais, falou de uma “responsabilidade de se unir à luta” contra a epidemia de opiáceos e garantiu que há comprimidos demais entre a população. A Purdue também promoveu em alguns Estados o uso de produtos que revertem a overdose, formas de descartar os fármacos e fez campanhas informativas sobre o vício.

A empresa, no entanto, rejeitou o pedido de alguns dos demandantes de deixar de vender sua versão mais forte de OxyContin e os especialistas advertem que continua divulgando seu remédio em outros países.

Lembke enfatiza que a solução para o vício rampante de opiáceos levará “anos, senão décadas, para chegar”. Pede ação nos vários âmbitos, além de reduzir a influência do setor farmacêutico, e abordar temas incômodos, como o que chama de “medicalização da pobreza” ou a estigmatização da dor, que contribuiu para que a partir dos anos noventa proliferassem as receitas de opiáceos contra as dores crônicas. O que ninguém imaginava é que por trás dessa intenção inicial se chegaria ao pesadelo atual.

A POLÊMICA FAMÍLIA DE PATRONOS ARTÍSTICOS POR TRÁS DO OXYCONTIN

A origem da Purdue Pharma, a fabricante do opiáceo OxyContin, está em uma pequena empresa de pesquisas científicas apoiada pela família Sackler. Os Sackler são conhecidos por sua riqueza e por suas generosas doações a museus e universidades. Mas nos últimos anos a epidemia de mortes pelo consumo de opiáceos os colocou diante de um espelho incômodo. Por exemplo, a fotógrafa Nan Goldin, que foi vítima do vício em OxyContin, liderou no fim de semana passado um protesto em uma ala do museu Metropolitan de Nova York que leva o nome da família. Os manifestantes exibiram cartazes como “Vergonha dos Sackler” e outros que pediam que o clã financie programas de reabilitação.

Os herdeiros de Arthur Sackler afirmam que ele morreu antes que o OxyContin tivesse sido criado e que não se beneficiam financeiramente do fármaco. Mas uma das filhas, Elizabeth Sackler, elogiou o ativismo de Goldin e considerou “moralmente aberrante” o papel da Purdue na crise dos opiáceos.

Fonte: El País - 23/03/2018

Fumar maconha 5 vezes na juventude já aumenta risco de psicose

Fumar maconha pode não ter os mesmos efeitos para todo mundo e, quando o início do hábito começa na adolescência, é ainda mais prejudicial.

E não precisa de muito: fumar cannabis apenas cinco vezes na vida, quando o indivíduo ainda é adolescente, aumenta os riscos de desenvolver psicose — desordem mental que faz com que a pessoa perca o contato com a realidade. É o que atestam novas descobertas lideradas por pesquisadores finlandeses, da Universidade de Oulu.

Tais estudos apoiam uma série de evidências que mostram que, consequentemente, a cannabis pode até aumentar o risco de suicídio.

“Nossas descobertas estão em consonância com as visões atuais sobre o uso pesado de cannabis, particularmente quando iniciadas em uma idade precoce, estando ligada a um risco aumentado de psicose”, comentou um dos pesquisadores do trabalho publicado no The British Journal of Psychiatry.

Especialistas afirmam que um estudo nacional inglês, divulgado há dois anos, mostrou que o consumo de skunk (variação da cannabis com maior concentração de substâncias psicoativas) entre os jovens ingleses aumentou bastante e, tal fato, já está associado a pelo menos 1/4 de novos casos de algum tipo de psicose da população.

Detalhes do estudo:

Mais de 6.000 voluntários entre 15 e 30 anos foram acompanhados para avaliar o risco de doença. Os números estimam que cerca de 1% da população sofra de psicose, o que pode causar delírios, como ouvir vozes e levar a graves dificuldades.

Um estudo paralelo, que envolveu o estudante de doutorado Antti Mustonen, mostrou uma ligação entre fumar cannabis e progressão do desenvolvimento de psicose.

Mustonen, que trabalhou ao lado dos especialistas de Cambridge e Queensland, acrescentou: “Se possível, devemos nos esforçar para evitar o uso precoce da cannabis”.

Cigarro ligado à psicose

Um estudo separado, publicado na Acta Psychiatrica Scandinavica, mergulhou na ligação entre fumar cigarros e psicose. No trabalho, pesquisadores mostram dados de adolescentes que fumaram em média dez cigarros por dia terem mais chances de sofrerem com psicose.

Tal risco também é aumentado se o tabagismo começar antes dos 13 anos, de acordo com a pesquisa, liderada pelo professor Jouko Miettunen. O profissional explicou que os achados eram verdadeiros mesmo quando contabilizavam outros fatores que aumentavam o risco, incluindo histórico familiar da doença.

“Com base nos resultados, a prevenção do tabagismo adolescente provavelmente terá efeitos positivos sobre a saúde mental da população na vida adulta”, afirmou.

Ian Hamilton, professor de saúde mental na Universidade de York, disse à publicação MailOnline que tais achados eram “preocupantes” e o contrário também acontecia.

“Pessoas com problemas de saúde mental são mais propensas a fumar. “Este estudo sugere que isso não é um acidente, pois fumar parece aumentar o risco de desenvolver sérios problemas de saúde mental, como psicose”, acrescentou.

Com DailyMail

Fonte: Veja - 17/03/2018

O futuro da política nacional sobre drogas nas mãos do Senado

Este ano será para a população brasileira, que há anos vive tempos conturbados, com denúncias de corrupção, escalada da violência, enfim… Com eleições à frente e também projetos de suma importância tramitando no Congresso, 2018 pode ser um ano marcado por grandes progressos ou retrocessos.

Um enorme avanço pode ser obtido com o Projeto de Lei Complementar (PLC) 37, de autoria do Deputado Federal e Ministro do Desenvolvimento Social Osmar Terra (MDB). O PLC 37 representa uma proposta para uma nova Política Nacional sobre Drogas em nosso país, que, dentre outros pontos, busca promover seu alinhamento com a nova Política Nacional de Saúde Mental, oferecer programas de prevenção e de tratamento baseados em evidências, além de ampliar as abordagens terapêuticas, hoje focadas na prática de redução de danos, fazendo com que o poder público possa ampliar a oferta de cuidados adequados às necessidades de cada paciente.

O projeto também aprimora a definição dos papéis das esferas municipal, estadual e federal em relação às medidas de prevenção e tratamento, assim como a distinção entre traficantes (que terão penas mais severas) e usuários, sendo que para os últimos continua a ser aplicada a lei brasileira 11.343/06, que despenaliza o usuário e evita que ele seja preso por portar drogas para consumo próprio.

Estamos falando de avanços significativos em relação à legislação anterior, que ainda não foram colocados em prática devido à morosidade do nosso processo legislativo. Aprovado pela Câmara dos Deputados em 2013, o PLC 37 foi encaminhado ao Senado, onde já foi analisado, discutido e aprovado em diversas comissões, dentre elas a de Constituição, Justiça e Cidadania.

A última ação legislativa agora depende do Presidente do Senado – Eunício de Oliveira (MDB), que deve colocá-lo em votação. Ou seja, está nas mãos do Senado brasileiro os próximos anos da política brasileira de enfrentamento, prevenção e tratamento contra o consumo de drogas. Porém, todo o trabalho dedicado a este projeto de lei, assim como as medidas que prevê, podem simplesmente ir por água abaixo muito em breve.

O julgamento no STF

Encontra-se suspensa no Supremo Tribunal Federal (STF) a votação do julgamento sobre a descriminalização da posse de drogas para uso recreativo (como mencionado anteriormente em minha coluna no Blog Letra de Médico). Em 2015, o ministro Gilmar Mendes votou a favor da descriminalização de todas as drogas, Luis Roberto Barroso e Edson Fachin votaram pela descriminalização apenas da maconha, sendo que o ministro Barroso sugeriu a fixação de um limite de 25 gramas para a posse da droga.

Porém, o então ministro Teori Zavascki realizou um pedido de vista do processo, que resultou na suspensão do julgamento. O ministro Alexandre de Moraes, que ocupou a vaga de Teori, falecido em um desastre aéreo em 2017, herdou o caso, que só pode continuar a ser debatido após sua avaliação.

Com esse contexto em mente, temos a seguinte situação: se o Senado permanecer inerte, corremos o risco de o STF, que não deveria fazer leis, desenhar um novo panorama na política de drogas brasileira com sua decisão. Não podermos esquecer que já são três votos favoráveis à legalização ao menos da maconha no Supremo Tribunal Federal, panorama oposto à vontade da maior parcela da população, contrária à descriminalização, conforme demonstrado durante anos em várias pesquisas pelo país.

Você pode acompanhar aqui o andamento do PLC 37.

É importante que a população brasileira exerça seus direitos e cobre uma posição sobre o assunto dos representantes que elegeu para o Congresso, para que esse projeto, que decide o futuro de uma política tão importante para todos nós, seja colocado em votação o quanto antes.

Ronaldo Laranjeiras - Professor de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e coordenador da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (UNIAD)

Fonte: UNIAD - 03/03/2018

Acidentes de carros fatais aumentam após 16h20 no ‘dia da maconha’ nos EUA, diz estudo

Horário e dia são mundialmente conhecidos como dia de consumo da erva; aumento de acidentes com morte foi de 12% em relação a dia comum.

Pesquisa mostra aumento de 12% em acidentes de carros fatais todo o dia 20 de abril após 16h20.

O horário e o dia são mundialmente conhecidos como uma celebração ao consumo de maconha.

A pesquisa foi publicada no "JAMA Internal Medicine", periódico científico da Associação Americana de Medicina.

Para chegar ao dado, pesquisadores utilizaram banco de dados de tráfego nos Estados Unidos por 25 anos consecutivos (de janeiro de 1992 a dezembro de 2016).

Eles observaram que há um incremento de 12% nos acidentes de carro com morte todo o dia 20 de abril entre 16h20 e 23h59, quando comparado a outros dias e outros horários.

Por que 16h20?

Não há certeza do porquê o horário de 16h20 e o dia 20 de abril ficaram conhecidos como um momento de celebração e consumo da erva.
Uma das hipóteses é que o termo tenha surgido de um grupo de estudantes nos Estados Unidos durante os anos 1970.
Conhecido como “The Waldos”, o grupo costumava se reunir às 16h20 após a escola e o futebol para consumir a droga.

Segundo os autores, estudos anteriores já demonstraram que concentrações elevadas de THC diminuem o tempo de reação do motorista às flutuações do trânsito.

O tetrahidrocanabinol (THC) é um dos principais princípios ativos da cannabis sativa e um dos responsáveis pelas alterações de percepção após o consumo da planta.

Outras pesquisas também indicaram que o consumo agudo da erva aumenta o risco de colisão no trânsito.

“Apesar dessa evidência, a condução após o consumo de cannabis é surpreendentemente comum”, dizem os autores do estudo.

“Nós hipotetizamos que a celebração da cannabis em 20 de abril pode estar associada a um aumento no risco de envolvimento fatal do trânsito”, concluem os pesquisadores.

O estudo também encontrou que o risco de acidente fatal neste dia e horário é maior em motoristas mais jovens.

O risco aumentado foi comparado a outros dias de comemoração nos Estados Unidos – como o Superbowl, final do futebol americano.

De acordo com os autores, o estudo serve de alerta para que campanhas de conscientização específicas para a maconha sejam colocadas em curso.

A pesquisa teve como primeiro autor John A. Staples, do Hospital Saint Paul no Canadá e foi financiada pelo Instituto de Pesquisa em Saúde no Canadá.

Fonte: G1 - 24/02/2018

Turma da Mônica irá conviver agora com a cerveja como se fosse um hábito transgeracional

A AMBEV, dona de marcas de cerveja como Skol, Antarctica, Brahma e Budweiser, lançou recentemente no mercado a campanha “Papo em Família”, que consiste em um material (cartilha, vídeo, tirinhas) da Turma da Mônica para falar sobre a idade certa para o consumo de bebidas alcoólicas.

Segundo a presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), Ana Cecília Marques, é inadmissível ter o Cebolinha, um dos personagens principais das histórias infantis aprendendo sobre a hora certa de ingerir bebidas alcoólicas, tratando a cerveja como se fosse leite. “O Cebolinha faz parte do imaginário coletivo brasileiro, e vê-lo convivendo com a cerveja, até hoje considerada por muitos uma bebida mais fraca, é uma péssima influência, principalmente por passar a ideia que ela é quase como se fosse água para matar a sede, o que sem dúvida é influência negativa”, afirmou a psiquiatra.

A peça ainda retrata os parentes do Cebolinha na trama, colocando na figura do pai o papel de definitivamente inserir a cerveja na mesa da família brasileira, justamente em casa, local onde deveria prevalecer a prevenção, principalmente ao lidar com jovens. “Não é de hoje que a indústria do álcool traça estratégias para garantir a clientela das novas gerações, mas mexer com o lúdico das crianças já é demais”, comentou Ana Cecília Marques.

Além da tão usada mensagem que coloca “a bebida alcoólica como um produto qualquer”, depois daquela que insiste que “é só beber com moderação”, a campanha reforça uma nova vertente ao dizer que “o produto pode ser um hábito transgeracional, parte da cultura familiar”. Daqui a algum tempo, poderá se transformar em um valor familiar, indo mais além da família, atingindo seu entorno, pois lá também estão os amigos do Cebolinha.

“Será que agora só nos resta esperar que por meio de suas propagandas inescrupulosas eles transformem a Mônica e suas amiguinhas em super mulheres, sensuais e poderosas, fantasiando que a bebida alcoólica é um produto que tem esse poder, e rapidamente nossas adolescentes irão bater todos os recordes do abuso e da dependência?”, indaga a presidente da ABEAD. “Onde estão os órgãos que controlam as propagandas? E diante de um crime tão contundente, vamos indiciar a indústria de bebidas alcoólicas ou o pai e a mãe do Cebolinha?”, conclui.

Fonte: UNIAD - 19/02/2018

Advogadas ajudam dependentes químicos a reencontrarem família

Na capital paulista, a Casa de Passagem Recomeço consegue reaproximar dependentes químicos que estavam longe de seus familiares há 11 anos.

Advogadas voluntárias ligadas à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) realizam buscas de parentes dos acolhidos do serviço público estadual que funciona em parceria com a Organização Social Casa de Isabel. A atividade intitulada “Justiça Restaurativa” acontece quinzenalmente, às 16h nas quintas-feiras.

A ação discute a importância do convívio familiar e promove uma mediação entre os parentes com o objetivo de facilitar o diálogo e a reaproximação. De acordo com os especialistas do Programa Recomeço, a retomada do vínculo familiar é parte fundamental para o processo de reinserção social e tratamento do dependente químico.

Inaugurada há um ano, a Casa de Passagem do “Programa Recomeço – Uma Vida sem Drogas” já acolheu mais de 300 dependentes químicos do Estado de São Paulo. Os usuários de substâncias psicoativas maiores de 18 anos são recebidos por um período de, no máximo, 30 dias.

A casa atende exclusivamente homens. São disponibilizadas 24 vagas e um investimento anual do governo do Estado de São Paulo de cerca de R$ 1 milhão no serviço.

Os acolhidos moram no local enquanto aguardam avaliações diagnósticas e providências necessárias para o encaminhamento a outros serviços socioassistenciais de retaguarda.

O Programa Recomeço é uma ação integrada entre as secretarias de Desenvolvimento Social, Saúde, Justiça e Cidadania, Educação e Segurança Pública, que oferece tratamento de saúde e reinserção social com foco no fortalecimento de vínculo familiar e inserção no mercado de trabalho.

Fonte: UNIAD - 07/02/2018

Mais de onze milhões de brasileiros têm depressão

Uma tristeza profunda que faz o corpo doer com os efeitos de uma doença que é invisível e dificulta ações cotidianas simples como levantar da cama, comer, trabalhar ou estudar. Essa é a depressão, que já é conhecida como o mal do século por ter estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que até 2020 será a doença mais incapacitante do mundo.

Por isso, a depressão foi o tema eleito pela OMS para o Dia Mundial da Saúde, comemorado neste dia 07 de abril. A proposta é chamar atenção para a doença e incitar os debates a esse respeito.

Segundo o recente relatório da OMS, a prevalência da depressão no Brasil já é a segunda maior carga de incapacidade, sendo o maior índice na América Latina. São mais de onze milhões de brasileiros diagnosticados com a doença, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A prevalência registrada é maior entre as mulheres (10,9%) do que nos homens (3,9%).

“Há três anos fui diagnosticada, depois de conviver alguns anos com sintomas como a completa falta de vontade de sair de casa, de ver os amigos, de levantar da cama e ter problemas dentro de casa com minha família pela incompreensão da minha ansiedade e falta de ânimo”, relata a barista, Aline de Sousa Bastos.

A depressão representa quase um quarto (23%) dos atendimentos ambulatoriais e hospitalares em saúde mental no Sistema Único de Saúde. A principal porta de entrada são as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que correspondem a 69% dos atendimentos e diagnósticos realizados no Brasil.

Os casos menos graves da doença recebem o acompanhamento de profissionais como psicólogos e psiquiatras, mas não requerem cuidados mais extremos. “Esse é um cenário bastante importante porque a Atenção Básica é a área ideal para acompanhar os casos leves e moderados, pois tem equipes constantemente capacitadas para desempenhar este atendimento”, explica o coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro.

As ocorrências de maior gravidade, como a falta de interesse no convívio social, ou que estão associadas a outras doenças como bipolaridade, esquizofrenia entre outras, são encaminhadas aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Uma das principais formas de tratamento da depressão é a psicoterapia, com sessões de acordo com a necessidade do paciente. Segundo a psicóloga Cecília Frota, essa terapia busca “mexer com o emocional para encontrar a causa do que gerou essa tristeza, para tentar ajudar o paciente a chegar em um nível de autoconhecimento que seja um caminho para a solução dos problemas”.

Apesar de os dados da Pesquisa Nacional de Saúde revelar que a frequência de pessoas com depressão aumenta de acordo com o avanço da idade, as crianças também são vítimas dessa doença e precisam de acompanhamento específico. Ouça aqui, na matéria especial da Rádio Saúde: https://soundcloud.com/ministeriodasaude/depressao-criancas-tambem-sao-afetadas-pela-doenca.

Pessoas que sofrem com a depressão e não conseguem buscar ajuda de profissional de saúde ou, mesmo aquelas com risco de suicídio, podem buscar apoio em conversas com os voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 141. Em breve, essa ligação passará a ser gratuita pelo telefone 188, graças a um acordo do Ministério da Saúde com o CVV.

“É um trabalho importante e muito efetivo, com resultados positivos para a sociedade e, por isso, continuaremos apoiando o CVV, que é tão necessário em momentos de angústia, em momentos em que as pessoas estão com um dilema sobre a vida para retomar o dia a dia”, declarou o ministro da Saúde, Ricardo Barros.

Janary Damacena para o Blog da Saúde

Fonte: UNIAD - 02/02/2018

O problema de exagerar no álcool e nos energéticos nas baladas

Maurício de Souza Lima

Os jovens estão bebendo mais cedo e com uma frequência maior. Isso é fato. Para muitos deles, as festas que não oferecem bebida alcoólica são bastante desinteressantes. E, apesar de a lei ser clara, proibindo o consumo para menores de 18 anos, a gente vê que existem até mesmo marcas que parecem desenhadas para agradá-los.

Algumas delas têm bem mais do que o dobro do teor alcoólico do que a média de uma cerveja, que gira em torno de 4,5% ou 5%. As vodcas flavorizadas, por exemplo, têm cerca de 14%. Menos, bem menos do que a vodca tradicional com seus 40%, é a pura verdade. Mas, ainda assim, um volume alto para um organismo em plena adolescência. E a meninada acha que está tomando suquinho de limão… Não está.

Para um fígado que começa a se acostumar a processar determinadas substâncias, é um desastre. Lembrando ainda que o álcool se espalha pelo corpo todo — vai parar até mesmo nos músculos e nos ossos desses jovens. Consumido com frequência, atrapalha um bocado o desenvolvimento.

Sem contar que trabalhos demonstram o seguinte: quanto mais cedo o indivíduo começa a beber, maior o risco de se tornar dependente do álcool no futuro, especialmente se existem pessoas com o problema do alcoolismo na família. Esse, porém, é apenas um aspecto.

E a realidade é que, tapando os olhos para os riscos, muitos pais cedem à pressão. O garoto vai dar uma reunião em casa e diz à família que gostaria que tivesse tal bebida. Ou já a avisa, de antemão, que os amigos irão trazer algumas garrafas. Aí o adulto fica sem saber o que fazer. Você quer minha opinião? Sempre digo para não ceder. No mínimo, pela implicação legal: o pai que aceita essa condição passa a se responsabilizar por todos os adolescentes menores de idade naquela festa. Ponto.

Claro que bancar essa decisão de negar a presença de bebida, totalmente contra a vontade do adolescente, sempre gera uma reação forte. Prepare-se. Afinal, faz parte da adolescência não só uma certa prepotência como um sentimento de invulnerabilidade: o jovem acha que, com ele, não vai acontecer nada. Só que acontece. E acontece cada vez mais. Deixe que fique nervoso.

Para piorar, nessas festas movidas a álcool, observo que garotos e garotas cometem erros básicos. Primeiro, beber de estômago vazio. Segundo, dar o tal do shot. Note que o corpo leva aproximadamente 40 minutos para metabolizar o álcool. Só que o menino dá o shot, não sente nada e, um minuto e meio depois, dá outro. Pensa até que é forte para a bebida. Ilusão.

O terceiro ponto é que todo álcool é diurético e faz a pessoa perder água. Sem líquido, as reações do organismo emperram. Tudo piora. Para contrabalançar, seria fundamental que a rapaziada tomasse líquidos não alcoólicos entre um gole bebida e outro. Mas não é o que costuma ocorrer. E, desse modo, a situação se agrava. Tornam-se mais freqüentes casos de coma e parada cardíaca na adolescência. Porque — apesar de em um primeiro estágio todo mundo parecer mais aceso e desinibido ao começar a beber —, o álcool é sempre um depressor do sistema nervoso, como se o desligasse aos poucos.

É o tal do “dar PT”, ou seja, dar uma “perda total”. Em geral, o jovem primeiro dorme ou até mesmo desmaia. Mas, se logo acorda e volta a beber, o risco de problemas graves é enorme.

Pior de tudo, fiquem sabendo, é a mistura com energético que, por si, ao menos em uma dose única, não faria mal. Ele tem mais ou menos 80 miligramas de cafeína, o que isoladamente não seria grande coisa.O perigo, porém, é misturar no mesmo copo uma substância depressora, o álcool, com outra que é estimulante. Não pensem que uma anula ou compensa a outra — engano que até adultos cometem. Nada disso. Fazer essa mistura é a mesma coisa de dirigir um carro e engatar a primeira e a marcha à ré ao mesmo tempo. A mesmíssima coisa. O corpo entra em pane.

E o que posso dizer? O de sempre: tente conversar com seu filho. A melhor prevenção contra todos os males na adolescência é o diálogo. Fale sobre o teor alcoólico enganador de certas bebidas, sobre a importância de comer algo durante a festa, sobre tomar água a todo instante, sobre evitar misturas com energéticos… Fale, antes de mais nada, que seria ótimo se ele esperasse um pouco mais para beber.

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clínico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Fonte: UOL - 26/01/2018

Parar de fumar gera economia de R$ 1 milhão em 30 anos

O hábito de fumar faz mal para a saúde e também para o bolso dos consumidores. Largar o cigarro pode levar a uma economia de até um milhão de reais em 30 anos, segundo Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e da escola DSOP Educação Financeira.

“Quanto a pessoa vai efetivamente economizar depende de seus hábitos, como quantos cigarros ela fuma por dia e o valor pago pelo maço”, afirma Domingos. Os cálculos do especialista consideram uma pessoa que fuma um maço por dia e paga oito reais por caixinha. Fazendo as contas, esse fumante gasta 240 reais por mês em cigarros. Investindo esse dinheiro em um fundo com rendimento a 8% (uma poupança, por exemplo), a pessoa terá 63.291,18 reais, em 10 anos, 293.901,45 reais, em 20 anos, e 1.028.274,92 reais, em 30 anos.

Se a pessoa paga mais pelo maço, a economia deve ser ainda maior. Fazendo as mesmas contas para um maço de nove reais por dia, ao final de 30 anos, o ex-fumante deve economizar 1.155.423,51 reais, investindo em fundo que renda aproximadamente 8% ao ano e corrigindo anualmente o valor investido de acordo com a inflação.

Esta economia, porém, é apenas resultado de deixar de comprar cigarros e investir o dinheiro que antes era dedicado a esses produtos. Segundo Domingos, a economia real pode ser ainda maior. Isso porque os cálculos desconsideram os gastos com saúde e a perda de rendimento no trabalho que a pessoa conseguiu evitar ao deixar de fumar.

Mas, para chegar lá, é preciso dedicação. “Em primeiro lugar, é importante estabelecer um sonho que deseja realizar com o valor. Afinal, sabemos que deixar o vício não é fácil e se o objetivo for apenas poupar por poupar, dificilmente se manterá perseverante ao longo dos anos”, afirma Domingos. “Portanto, além de considerar todos os benefícios para a saúde, é válido definir um sonho para realizar com o dinheiro que terá após parar de fumar – como se aposentar com tranquilidade, comprar uma casa ou um terreno, entre outros. O sonho irá motivar a pessoa a deixar de fumar e poupar e investir o dinheiro mensalmente.”

Além disso, quando se trata de investimentos, poupar valores que parecem desprezíveis agora pode fazer a grande diferença no futuro. “Por ser um objetivo de longo prazo, os rendimentos do investimento trabalham a favor. Ou seja, além do valor poupado, no futuro essa pessoa terá também os rendimentos obtidos sobre o valor”, explica Domingos. Isso quer dizer que, se no início o rendimento era calculado sobre os oito reais poupados em um maço de cigarro, no futuro ele levará em conta os 1.028.274,92 reais obtidos em 30 anos de economia.

“Também é válido, com o passar dos anos, procurar investimentos que deem retorno financeiro ainda maior”, diz o especialista. “O mais importante é dar os primeiros passos: mudar os hábitos e começar a poupar para realizar seus sonhos.”

Fonte: VEJA - 19/01/2018

Philip Morris, fabricante do Marlboro, anuncia que está desistindo dos cigarros. Empresa fez anúncio no formato "Resolução de Ano Novo"

São Paulo - "Todos os anos, muitos fumantes desistem do cigarro. Agora é nossa vez". Com essa frase, a Philip Morris, fabricante do Marlboro e do L&M, anunciou que pretende deixar de vender cigarros no Reino Unido. É provavelmente um primeiro passo para uma mudança de estratégia mundial da companhia.

Isso não significa, porém, que a empresa esteja desistindo das frentes mais rentáveis de seu negócio: nicotina e tabaco. Cigarros eletrônicos e produtos alternativos à base de tabaco serão cada vez mais destacados no portfólio da gigante mundial.

Na publicação. que esteve em diversos jornais locais na quinta-feira, 04/01/2018, a empresa afirmou que a melhor decisão para os 7,6 milhões de adultos britânicos que fumam é desistir. Por isso, deixará de lado a sua frente mais conhecida para continuar investindo em alternativas para esse vício.

"Até agora, investimos 2,5 bilhões de libras esterlinas em pesquisa e desenvolvimento. E isso tem feito diferença", diz a companhia, citando novos produtos que permitem aos fumantes ter opções melhores para a saúde.

Para cumprir com essa resolução de Ano Novo, a Philip Morris fez uma série de compromissos, como lançar um site e uma campanha com informações para fumantes que querem desistir dos cigarros; apoiar iniciativas governamentais em locais onde o número de fumantes é muito alto e buscar a aprovação do governo para inserir nas embalagens de cigarros informações sobre alternativas para desistir do produto. Por último, obviamente, se comprometeu a expandir a gama de produtos alternativos no Reino Unido.

As tentativas aparentemente nobres da Philip Morris já tiveram efeitos diferentes do esperado em outros momentos. Em setembro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) rejeitou um plano da mesma companhia para criar uma fundação para um Mundo sem Cigarro, focando nas "opções alternativas" que vende.

Atualização:

Em contato com o InfoMoney, a Philip Morris afirmou que procura regulamentação da Anvisa para "produtos de risco reduzido, como produtos de tabaco aquecido, que são melhores alternativas para os adultos fumantes do que cigarros". A empresa afirma que a "visão de construir um futuro sem fumaça não significa construir um futuro sem tabaco". E reforça que o "principal produto de risco reduzido é um produto que contém tabaco, o que reforça nosso compromisso com a cadeira produtiva do tabaco no Brasil".

Fonte: Infomoney - 12/01/2018

Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS

O vício em jogos de videogame passou a ser considerado pela primeira vez um distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde.

A 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID) irá incluir a condição sob o nome de "distúrbio de games". O documento descreve o problema como padrão de comportamento frequente ou persistente de vício em games, tão grave que leva "a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida".

Alguns países já haviam identificado essa condição como um problema importante para a saúde pública.

Muitos, incluindo o Reino Unido, têm clínicas autorizadas a tratar o distúrbio.

A última versão da CID foi finalizada em 1992, e a nova versão do guia será publicada neste ano. Ele traz códigos para as doenças, sinais ou sintomas e é usada por médicos e pesquisadores para rastrear e diagnosticar uma doença.

O documento irá sugerir que comportamentos típicos dos viciados em games devem ser observados por um período de mais de 12 meses para que um diagnóstico seja feito. Mas a nova CID irá reforçar que esse período pode ser diminuído se os sintomas forem muito graves.

Os sintomas dos distúrbios incluem:

  • Não ter controle de frequência, intensidade e duração com que joga videogame;
  • priorizar jogar videogame a outras atividades;
  • continuar ou aumentar ainda mais a frequência com que joga videogame, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito;

Richard Graham, especialista em vícios em tecnologia no Hospital Nightingale em Londres reconhece os benefícios da decisão.

"É muito significativo, porque cria a oportunidade de termos serviços mais especializados. Ele coloca (esse distúrbio) no mapa como algo a ser levado a sério".

Mas, para ele, é preciso tomar cuidado para não se cair na ideia de que todo mundo precisa ser tratado e medicado.

"Pode levar pais confusos a pensarem que seus filhos têm problemas, quando eles são apenas 'empolgados' jogadores de videogame", afirmou.

Segundo Graham, ele vê cerca de 50 casos de vício em videogame surgindo por ano e seu critério é: o jogo está afetando atividades básicas, como comer, dormir, socializar ou ir à escola? Se a resposta for sim, então, pode ser um problema.

"O vício está dominando o estado real neurológico, o pensamento e as preocupações?" - de acordo com Graham, essa seria uma boa pergunta para fazer ao diagnosticar um paciente.

Em 2013, no Manual de estatísticas e diagnósticos de distúrbios mentais"(DSM, na sigla em inglês), o distúrbio relacionado a games e videogames era considerado "condição a ser estudada" - o que significa que ela não era oficialmente reconhecida.

Muitos países já adotam até mesmo medidas mais sérias para combater o problema. Na Coreia do Sul, o governo criou uma lei para proibir o uso de games por pessoas menores de 18 anos entre meia-noite e seis da manhã.

No Japão, os jogadores são advertidos caso passem mais do que uma certa quantidade de horas por mês jogando videogame e, na China, a gigante de tecnologia Tencent determina um limite de quantidade de horas que uma criança pode jogar.

Um estudo recente feito na Universidade de Oxford sugeriu que, apesar de as crianças no geral passarem cada vez mais tempo na frente das telas, isso não necessariamente representa vício.

"As pessoas acreditam que as crianças estão viciadas em tecnologia e nessas telas 24 horas por dia a ponto de abdicarem de outras atividades. Mas sabemos que esse não é o caso", afirmou o pesquisador Killian Mullan.

"Nossas descobertas mostram que a tecnologia tem sido usada em alguns casos para apoiar outras atividades, como tarefas de casa, por exemplo, e não excluindo essas atividades das vidas das crianças", disse ele.

"Assim como nós, adultos, fazemos, as crianças espalham o uso da tecnologia digital ao longo do dia, enquanto fazem outras coisas", finalizou.

Fonte: G1 - 05/01/2018

Prevenção às drogas é ação e não sermão. A Islândia prova isso.

Revista VEJA
BLOG Letra de Médico

Com um programa simples e bem direcionado, a Islândia conseguiu reduzir de forma surpreendente e efetiva o consumo de álcool e drogas entre os jovens

por Ronaldo Laranjeira

Um país que, literalmente, “inverteu” um ditado: do vinho para água. Imagine a seguinte situação: em apenas duas décadas, a Islândia conseguiu fazer com que a juventude que mais bebia na Europa se tornasse a que adota o estilo de vida mais saudável no continente. E mais: com medidas relativamente simples, que podem ser replicadas ao redor do mundo. Parece brincadeira, mas não é.

Em 1998, 42% dos adolescentes islandeses entre 15 e 16 anos afirmaram ter ficado alcoolizados no último mês – 23% também fumavam e 17% usavam maconha. Números preocupantes. Após as medidas adotadas no país, em 2016 esses índices caíram de forma impressionante: de 42% para 5%, de 23% para 3% e de 17% para 7%, respectivamente.

Como a Islândia conseguiu?

Basicamente, a Islândia conseguiu realizar o que diversas nações estão tentando há décadas, na maioria dos casos sem sucesso. O que foi feito de diferente? Ouviram os jovens e identificaram suas necessidades, além de transformar a prevenção, que saiu do puro falatório e partiu para a ação.Tudo isso aconteceu graças ao início do programa Juventude na Islândia (Youth in Iceland), justamente em 1998. Anteriormente, dentre as principais ações realizadas pelo governo estava apenas ensinar às crianças os impactos negativos provocados pelo uso de drogas.

Os números mostram que, claramente, o que estava sendo feito não apresentava resultados positivos. Aí teve início esta iniciativa, que busca identificar questões como características familiares, hábitos, anseios e possíveis problemas emocionais dos jovens, dentre outras questões, por meio de questionários aplicados periodicamente aos adolescentes das escolas islandesas.

A pesquisa identifica estas e outras variáveis, que integram informes repassados para cada distrito e escola pesquisada. O resultado? Ações específicas, segmentadas para os jovens de cada comunidade, com alternativas de lazer e esporte elaboradas para combater os fatores de risco, gatilhos sociais e psicológicos identificados no estudo, que possam levar os adolescentes a consumir drogas. A escolha dessas alternativas é baseada no conceito de que podem provocar um efeito parecido ao dos entorpecentes no cérebro, por meio da endorfina, afastando os jovens de seu consumo.

Aqui está um dos grandes trunfos do programa: considerar o perfil dos adolescentes ao ser elaborado – ávidos por desafios e por experimentar novas sensações. Além disso, é uma população que passa por descobertas constantes, períodos de ansiedade e angústia, que muitas vezes encontra nas drogas uma forma de enfrentar essas questões. Outra grande sacada do Juventude na Islândia é o fato de ser realizado a nível local, desde a pesquisa até sua aplicação, em um esforço conjunto entre governos municipais, escolas e as próprias comunidades.

Prevenção começa em casa

Tudo começa com os pais, considerados como o principal ponto de prevenção. O programa defende que eles, ao passarem mais tempo com os filhos, dão o suporte necessário que precisam e funcionam como fator preventivo, ajudando os jovens a enfrentar dificuldades, ao mesmo tempo em que têm a possibilidade de acompanhá-los e identificar um possível consumo de drogas, por exemplo.

Outro passo importante foi o aumento do vínculo entre as escolas e os pais, por meio de conselhos escolares e organizações com mães e pais, criados por lei em todos os centros de ensino. Além disso, o setor público passou a financiar mais atividades extraescolares, como esportivas ou culturais. Tais atividades podem variar de local para local, já que são definidas com base nos resultados obtidos durante a pesquisa. Ou seja: é utilizado o que funciona para a juventude daquela região.Outras medidas adotadas foram o enrijecimento de leis antidrogas ou a determinação que prevê que crianças menores de 12 anos não podem andar sozinhas nas ruas depois das 20h e, no caso de adolescentes de 13 a 16 anos, após as 22h (com algumas exceções).

Resultados surpreendentes

Os resultados falam por si só: queda drástica no consumo de drogas e diminuição do risco de uso, adoção de um estilo de vida mais saudável e até a obtenção de melhores resultados acadêmicos por parte dos jovens. Tudo isso com medidas de certa forma simples, mas com uma diferença crucial: são políticas baseadas em evidências e não no famoso “acho que”, um fato que já citei inclusive nesta coluna e que defendo veementemente. Além disso, o programa se destaca por ser uma ação sustentada e atualizada constantemente, já que os questionários são reaplicados aos jovens periodicamente, o que faz com que as ações do Juventude na Islândia possam ser readequadas e permanecerem eficazes.

Um exemplo prático da importância de abandonarmos de vez os achismos e utilizarmos dados confiáveis na tomada de decisões, principalmente de políticas públicas. A Islândia fez isso, e funciona.

Por Ronaldo Laranjeira
Professor de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e coordenador da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (UNIAD)

Fonte: UNIAD - 29/12/2018

A doença da doença

Transtornos mentais e até sífilis podem ter como causa a dependência química. Mas ela própria pode surgir de outros males. Entenda a “doença da doença”. Hoje vivemos em um momento em que a flexibilização das políticas sobre drogas, envolvendo inclusive a legalização de algumas, é amplamente discutida. Muito se fala sobre este assunto, enquanto outro tema é praticamente deixado de lado: a relação entre dependência química e outras doenças, as chamadas comorbidades.

Mas o que exatamente significa comorbidade?

Este termo é utilizado para designar transtornos ou doenças que coexistem, que estão relacionados entre si. Por exemplo – uma enfermidade ocasionada por outra. Assim, a dependência química (como um transtorno mental que é) tanto pode provocar comorbidades, como até ser uma.

Existem pessoas que possuem transtornos mentais, como depressão ou ansiedade, que são mais propensas ao uso de drogas. E um dos maiores problemas enfrentados no tratamento de dependentes químicos está aqui – em grande parte dos casos, não são identificados transtornos mentais ou doenças que podem levar ao uso de entorpecentes. Isso porque avaliações, como as neuropsicológicas, sobre a integridade das funções cerebrais do usuário, raramente são feitas, antes dele se tornar dependente.

Vamos pensar agora no caminho inverso, em uma pessoa saudável. Diversos estudos mostram que o abuso de substâncias psicoativas provoca impactos à saúde mental ou física do usuário. Já é comprovado que usuários de drogas como a maconha sofrem impactos em sua memória, concentração, podem desenvolver quadros de surtos psicóticos e até esquizofrenia, por exemplo.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, um levantamento realizado em 2016 pelo Programa Recomeço, em São Paulo, indicou que um entre cada quatro dependentes químicos atendidos no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD) tem ou já teve sífilis, média dez vezes maior do que a da América Latina.

O mesmo estudo identificou que 5,3% dos pacientes que integraram a pesquisa possuem o vírus HIV. Neste caso, essa situação ocorre pela vulnerabilidade causada pelo consumo de drogas, que faz com que os usuários adotem comportamentos de risco, praticando sexo sem proteção, dentre outros fatores.

Por que esse assunto é importante?

Porque o tratamento contra a dependência química, se não for planejado corretamente, pode englobar apenas um dos problemas de saúde apresentados pelo paciente, sendo que uma comorbidade ou doença pré-existente podem acabar passando em branco, não resolvendo o quadro de forma geral.

Pense no caso da sífilis, apontado acima. O tratamento adequado e completo, além de tratar o indivíduo, diminui também as chances de transmissão da doença. É uma questão de saúde pública. Assim, é importante pontuar que o tratamento contra a dependência química é diferente para cada pessoa. Todo paciente tem suas particularidades.

Existem métodos que são comumente usados? Sim. Mas cada indivíduo tem necessidades únicas, que fazem com que seu tratamento seja diferente do aplicado em outro dependente. É a velha história: cada caso é um caso. O que funciona com um, não necessariamente funcionará com outro.

Portanto, seja você um profissional de saúde ou um familiar de um dependente químico, sempre leve em conta as questões levantadas neste artigo. Elas podem fazer a diferença entre a reabilitação e a recaída.

Fonte: VEJA - 22/12/2017

Pesquisa com crianças no centro de SP revela acesso fácil a drogas, agressões e fome

SÃO PAULO - Uma pesquisa realizada com crianças e adolescentes que vivem no centro de São Paulo revela acesso fácil e precoce a álcool e drogas, além de uma situação de vulnerabilidade evidenciada por trabalho infantil, agressões e fome. Os dados mostram que mais da metade dos jovens que vivem na Cracolândia dizem que as drogas chegam a eles por meio de terceiros e que não precisam sequer procurar os traficantes.

O estudo dividiu os resultados por faixas etárias. Um terço das crianças que têm entre 2 e 6 anos afirma se alimentar na rua. Já no grupo de 7 a 11 anos, 12% responderam que trabalham e 37% declaram sofrer algum tipo de violência, como agressão e insultos. Entre os jovens de 12 a 17 anos, um quarto já teve contato com bebidas alcoólicas, considerada por especialistas como porta de entrada para o consumo de drogas.

Os resultados fazem parte da pesquisa "A Criança no Centro: um retrato das infâncias na cidade de São Paulo", feita ao longo do ano por cinco ONGs que atuam na região com população em situação de vulnerabilidade social e divulgada nesta sexta-feira (08/12/2017). Foram ouvidas mais de 500 crianças e adolescentes de 2 e 17 anos que vivem nos bairros da Sé, República, Anhangabaú, Santa Cecília e Campos Elíseos, onde fica parte da Cracolândia.

Nessa região do centro de São Paulo, onde a venda e o consumo de drogas acontece livremente, foram ouvidas 22 crianças e adolescentes em situação de rua. Delas, 55% já tiveram contato com um ou mais tipos de entorpecentes. Durante o trabalho dos pesquisadores, a maior parte das crianças estava consumindo drogas quando foram abordadas: thinner (41% dos entrevistasdos), crack (18%) e cigarro (5%).

Quando perguntados como foi o primeiro contato com a droga, 42% disse que foi por vontade própria e 58% afirma que aceitou o que foi oferecido por terceiros.

Desses jovens, 41% declararam que se dividiam entre dormir na rua e em casa, enquanto 27% disseram que dormiam somente na rua.

PREFERÊNCIA PELA RUA

No grupo de 2 a 6 anos, a rua aparece como preferência de 51% das crianças, em especial os meninos, pois 60% deles declaram gostar da situação. Para os pesquisadores, isso representa uma situação de extrema violação de direitos.

Das crianças de 7 a 11, 19% declararam dormir com fome ou não souberam responder essa questão. No grupo de 12 a 17 anos, 8% afirmaram que dormem com fome.

Ainda entre os mais velhos, 79% alegaram que nunca se envolveram com roubo ou furto. Outros 13% responderam que já praticaram esse tipo de crime para "ajudar em casa" ou comprar "roupas, calçados ou eletrônicos".

“Culpabilizar os adolescentes ou simplesmente institucionalizá-los ou ceder a pressões midiáticas, não garantirá transformações de vidas, ou ainda, resposta qualificada a esta problemática social, deixando mais longe o rompimento do ciclo da pobreza e miséria”, observam os pesquisadores no relatório.

Procurada para comentar o estudo, a Prefeitura de São Paulo informou que desconhece o conteúdo da pesquisa, mas que "trabalha para melhorar as condições de vida de todas as crianças da cidade, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade".

A prefeitura destacou a criação de 18 mil vagas em creches neste ano e a promulgação do marco regulatório da primeira infância, que envolve as secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social.

A gestão municipal afirma manter serviços especializados de abordagem e atenção a crianças em situações de rua, além de um programa de prevenção e erradicação do trabalho infantil (PETI), que tem como pressuposto "a promoção, garantia e defesa dos direitos da criança e do adolescente em situação de exploração e trabalho infantil".

Fonte: O GLOBO - 15/12/2017

Promotor pede proibição de bebidas alcoólicas em festa de colégio evangélico

Consultor Jurídico

Diante da impossibilidade de coibir que adolescentes consumam bebidas alcoólicas em festas de formatura, a venda desses produtos deve ser proibida nesse tipo de evento. A recomendação é de um promotor de Jaraguá do Sul (SC) a um colégio evangélico da cidade.

O fato de a escola promover um trabalho amparado "por valores éticos, estéticos, morais e espirituais", como ela própria divulga em seu site, parece não ser suficiente para o promotor, que pede que a escola alerte os pais e responsáveis sobre o consumo de álcool por adolescentes, principalmente nos chamados "esquentas", quando jovens se reúnem para beber antes da festa de formatura.

E ameaça: aplicará as medidas proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente ao jovem que for encontrado embriagado ou sob efeito de entorpecentes e também aos seus pais. O promotor diz ainda que a responsabilidade civil, administrativa e criminal dessas festas não é das escolas, mas, sim, dos pais, que firmam os contratos de prestação de serviço com clubes e empresas de formatura.

A recomendação orienta ainda a escola a informar aos pais que os adolescentes também mentem. Segundo o promotor, há uma proliferação de eventos clandestinos mascarados de aniversário e confraternização, onde são servidas bebidas alcoólicas. Entre as estratégias dos jovens, segundo a recomendação, está fazer festa na casa de famílias que estão ausentes da cidade, como nos filmes adolescentes hollywoodianos.

O promotor determina ainda instauração de inquérito civil para implantar projeto de prevenção de consumo de drogas e álcool por adolescentes, pedindo que a recomendação à escola evangélica seja enviada a todas as escolas públicas e particulares que possuam turmas dos anos finais do ensino fundamental e médio.
Clique aqui para ler a recomendação.

Fonte: UNIAD - 08/12/2017

Marcas de cigarro dos EUA são obrigadas a admitir que causam mortes

Empresas gigantes da indústria do tabaco perderam uma batalha iniciada há quase duas décadas na Justiça americana e, desde este domingo (26/11/2017), passaram a ter de exibir anúncios na mídia admitindo ter encoberto mortes causadas pelo tabagismo e colocado aditivos nos cigarros para torná-los mais viciantes.

As empresas Altria, R.J. Reynolds, Lorillard e Philip Morris USA são citadas nos anúncios, que serão exibidos por um ano na TV e na imprensa escrita. A ordem judicial foi dada em 2006, mas desde então as marcas tentavam barrar a decisão por meio de recursos, que só agora se esgotaram.

"Mais pessoas morrem todos os anos por fumar do que por assassinato, AIDS, suicídio, drogas, acidentes de carro e álcool combinados", diz um dos vídeos exibidos na TV e na internet. "Fumar mata, em média, 1.200 americanos. Todos os dias", também dizem os anúncios.

"Fumar causa doenças cardíacas, enfisema, leucemia mielóide aguda e câncer de boca, esôfago, laringe, pulmão, estômago, rim, bexiga e pâncreas. Fumar também causa redução da fertilidade, baixo peso em recém-nascidos e câncer do colo do útero", continua.

Mensagens como essas terão que ser exibidas em anúncios de página inteira nos 50 jornais mais importantes dos Estados Unidos por cinco domingos durante um ano. Na televisão, serão ao menos 260 exibições por doze meses em redes nacionais, como a ABC, a CBS e a NBC, cinco dias por semana, no horário nobre da noite.

Vício

A campanha imposta pela Justiça também pretende alertar os americanos para os riscos da nicotina, que causa o vício em cigarro.

"As empresas de cigarros controlam o impacto e a entrega da nicotina de várias maneiras, incluindo a concepção de filtros e a seleção do papel do cigarro para maximizar a ingestão de nicotina, a adição de amônia para tornar o sabor do cigarro menos amargo e o controle da composição física e química da mistura de tabaco", diz o texto do anúncio. "Quando você fuma, a nicotina realmente muda o cérebro — é por isso que parar de fumar é tão difícil".

Fonte: Revistagalileu.globo.com - 01/12/2017

Pais autoritários protegem mais contra drogas do que tolerantes, diz estudo

Adriana Nogueira
Do UOL

Quando se trata de prevenir o abuso de drogas e álcool por adolescentes, pais que sabem combinar limites com diálogo são os mais bem-sucedidos. Essa é a conclusão de um estudo coordenado por Zila Sanchez, docente do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

A pesquisa –realizada com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras, com idade média de 12,5 anos– analisou quatro perfis de pais: autoritativo (que combina exigência com diálogo e afeto), autoritário (em que prevalece a exigência),indulgente (que tem baixo grau de exigência, mas alto de diálogo e afeto) e negligente (em que as duas características são baixas).

“Foi feito um ranking, que listava do perfil mais protetor ao menos. As extremidades corroboraram estudos internacionais. Pais autoritativos são os mais protetores e os negligentes, os menos. A surpresa foi que o segundo perfil mais protetor é o de pais autoritários. Lá fora, essa posição costuma ser ocupada pelos indulgentes”, diz.

Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico científico “Drug and Alcohol Dependence”, em agosto. Os estudantes ouvidos eram do 7º e 8º anos de 62 escolas públicas localizadas nas cidades de Tubarão (SC), Florianópolis (SC), São Paulo (SP), São Bernardo do Campo (SP), Fortaleza (CE) e Brasília (DF). Eles responderam questionários de forma anônima.

Limite também é afeto

“A dificuldade de muitos pais de colocarem regras vem da preocupação de deixarem de serem amados pelos filhos. Mas o papel deles é educar. O amor vai vir como consequência de todo o trabalho de criação”, diz o psicólogo Yuri Busin, diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio), em São Paulo.

A psicóloga Mariana Verpa Sanches, do Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas),ligado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo), afirma que o que muitos pais parecem não saber é que colocar regras e cobrar o cumprimento delas também é uma forma de afeto.

“No grupo, atendemos dependentes a partir de 18 anos, e já ouvi de muitos que a liberdade que tinham parecia ser falta de amor”, diz a psicóloga.

Buscar informação

Segundo Mariana, é importante que pais que sintam dificuldade de colocar limites busquem ajuda. “Vale procurar a escola do filho ou mesmo um psicólogo. Às vezes, os adultos tiveram uma história difícil com os próprios pais e decidem fazer tudo diferente, caindo em extremos”, fala Mariana.

A especialista também aconselha os adultos a se informarem antes de falar com os filhos.

“Há pais que se apavoram ao achar um baseado na mochila do jovem. Chegam para conversar e dizem que a maconha é a porta de entrada para drogas mais pesadas, o que não é verdade. Estudos já comprovaram que o álcool e o tabaco fazem esse papel. Muitas vezes, o adolescente tem mais informação do que os pais, o que faz com que não leve em consideração o que esses estão falando.”

Famílias Fortes

Desde 2013, o Ministério da Saúde vem implementando em diversas cidades o Famílias Fortes, um programa de fortalecimento de vínculos familiares e prevenção ao abuso de drogas, inspirado em uma iniciativa semelhante, dos Estados Unidos.

A efetividade do programa --voltado para pais e adolescentes de dez a 14 anos-- está sendo avaliada por um estudo coordenado por Sheila Giardini Murta, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília. A pesquisa será concluída em 2018.

“Mas os dados preliminares mostram que os pais têm conseguido desenvolver habilidades para ensinar responsabilidades, estabelecer regras, regular as emoções, expressar afeto e se comunicar de modo mais positivo. Já os adolescentes têm conseguido se proteger mais de influências negativas dos seus pares, recusando-se a aderir a situações de risco, como faltar à aula”, diz Sheila.

A colocação de limites, segundo os especialistas ouvidos nesta reportagem, deve começar já na infância, mas corrigir caminhos é possível mesmo na adolescência. “Mas uma coisa é construir uma casa do zero, outra é reformar uma que existe. Haverá dificuldades, claro”, finaliza Mariana Sanches.

Fonte: UOL - 24/11/2017

Consumo regular de álcool mata células-tronco cerebrais que produzem novos neurônios

POR CESAR BAIMA

RIO – Até pouco tempo atrás, os cientistas achavam que o número de células nervosas do cérebro adulto era definido ainda cedo na vida, sem o desenvolvimento de novos neurônios a partir de uma determinada idade. Recentemente, porém, eles descobriram que um pequeno grupo de células-tronco continua a produzir novos neurônios, ainda que em quantidades e em regiões cerebrais limitadas, ao longo da vida, num processo que foi batizado de “neurogênese”.

Esta descoberta de uma certa capacidade de “regeneração” do cérebro mudou paradigmas na abordagem das pesquisas para entender e buscar tratamentos de problemas que provocam a perda de neurônios, sejam doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer, ou fatores externos, como o alcoolismo. E foi diante desta possibilidade que pesquisadores da Divisão Médica da Universidade do Texas em Galveston, EUA, decidiram investigar os efeitos do consumo regular de álcool neste tipo de células.

- A descoberta de que o cérebro adulto produz células-tronco que criam novas células nervosas nos deu uma nova maneira de abordar o problema das mudanças no cérebro relacionadas ao álcool – diz Ping Wu, professor do Departamento de Neurociência e Biologia Celular da instituição. - Mas antes de desenvolvermos estas novas abordagens precisamos entender como o álcool impacta as células-tronco cerebrais em diferentes estágios de seu desenvolvimento, em diferentes regiões cerebrais e nos cérebros tanto de machos quanto de fêmeas.

Assim, em experimentos com camundongos usando técnicas avançadas que os permitem “marcar” estas células-tronco nos cérebros dos animais, os cientistas verificaram que a ingestão regular de álcool no longo prazo mata a maior parte delas, reduzindo a produção e desenvolvimento de novos neurônios. Além disso, eles observaram que as fêmeas dos camundongos apresentavam déficits maiores que os machos, exibindo sinais mais severos de intoxicação e um reservatório menor de células-tronco cerebrais na zona subventricular, uma das principais regiões de neurogênese do cérebro.

Os cientistas esperam que mais estudos baseados em seu modelo animal dos efeitos do alcoolismo no cérebro tragam uma melhor compreensão do como o álcool interage com as células-tronco cerebrais, abrindo caminho para o eventual desenvolvimento de novas estratégias para tratar e curar o alcoolismo e suas consequências físicas no órgão.

Fonte: O GLOBO - 17/11/2017

Consumo de álcool aumenta propensão a vício em cocaína, diz estudo

LOS ANGELES - O consumo de álcool leva a um comportamento mais propenso ao vício em cocaína, segundo os resultados de um estudo realizado com ratos que foi publicado nesta quarta-feira, 01/11/2017, pela revista Science Advances, da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Depois de consumir álcool durante 10 dias, os ratos se mostraram mais viciados em cocaína, apesar de receberem choques elétricos quando consumiam a droga.

"A elaboração do estudo foi inspirada em observações em humanos", explicou em entrevista à agência de notícias EFE o diretor da pesquisa, Edmund Griffin Jr.

Segundo Griffin, outros estudos, como por exemplo alguns realizados pela epidemiologista da Universidade de Columbia e coautora do relatório, Denise Kandell, mostraram que nos humanos há uma sequência de comportamentos em casos de abuso de drogas.

"As pessoas que consomem cocaína normalmente têm um padrão histórico de dependência ao álcool ou à nicotina", destacou Griffin.

Uma das questões que o estudo queria resolver era se as pessoas que consomem álcool e maconha têm o costume de se reunir por razões meramente sociais ou também biológicas.

Para o experimento foram utilizados dois grupos de ratos: ao longo de 10 dias e durante duas horas ao dia, um grupo foi submetido ao consumo de álcool e outro ao de água, e depois ambos foram expostos ao consumo de cocaína.

Segundo Griffin, os ratos que previamente consumiram álcool desenvolveram uma maior dependência à cocaína e mantiveram o consumo apesar de consequências negativas, como um choque elétrico a cada vez que consumiam a droga.

"O consumo de álcool aumenta as respostas de consumo de cocaína, embora este tenha circunstâncias negativas como o choque elétrico", disse o cientista, que realçou que o estudo mostra a presença de um fator biológico e não só de conduta social. "Esta pesquisa abre o caminho para oferecer novas opções terapêuticas para o tratamento da dependência."

A análise mostrou que "tanto o álcool quanto a nicotina atuam através de mecanismos moleculares similares para aumentar a vulnerabilidade à cocaína".

"O que me surpreendeu é que os ratos se comportaram exatamente como esperávamos de acordo com um estudo prévio de Denise sobre pessoas que usam nicotina e álcool antes de usar cocaína", afirmou Eric Kandel, neurocientista da Universidade de Columbia e outro dos autores da pesquisa.

As conclusões que mostram que há uma base biológica e não somente social no consumo de nicotina e álcool como precursores ao consumo de cocaína abrem grandes possibilidades para o desenvolvimento dos programas de prevenção.

"Quando os jovens se envolvem com drogas é importante conhecer qual mecanismo é responsável pelo fato de o uso de uma droga aumentar o risco de usar outras drogas", apontou a especialista em reabilitação Denise Kandell.

Da mesma forma, a cientista destacou a importância do estudo para os tratamentos de reabilitação de toxicomania.

"Para tratamentos de reabilitação, é muito importante saber que o uso de álcool e nicotina é um precursor para o consumo de cocaína."

Não obstante, Griffin destacou que os ratos são mais suscetíveis à dependência do que os humanos.

"Muitas pessoas que usam drogas não são tão suscetíveis a se tornarem dependentes."

Segundo os pesquisadores, o próximo passo é "entender melhor os mecanismos pelos quais o álcool dirige o processo de dependência" para outras drogas.

O estudo também abre caminho para determinar se o consumo de maconha é um fator que pode levar ao consumo de cocaína, "o que teria implicações muito importantes para os tratamentos na saúde pública", concluiu Griffin. /EFE

Fonte: UNIAD - 10/11/2017

Por que o Brasil escapou ileso da droga que virou epidemia nos EUA e na Europa

Letícia Mori
Da BBC Brasil em São Paulo

Magros e com ar abatido, eles perambulam pelas ruas, com isqueiro na mão, comprando drogas para aplacar sua crise de abstinência. O cenário pode lembrar o de usuários de crack, que se espalham pelas capitais brasileiras, mas nesse caso retratam uma outra realidade: a do uso de heroína e opioides nos Estados Unidos e na Europa.

Os Estados Unidos acabaram de declarar uma epidemia de opioides – drogas derivadas do ópio, como a heroína, a morfina e a metadona – como uma emergência de saúde pública. "Nunca vimos algo como o que tem acontecido nos últimos quatro anos", disse o presidente Donald Trump na quinta.
Na Inglaterra, no país de Gales e na Escócia, o número de mortes por overdose de heroína dobrou nos últimos cinco anos - e é hoje o maior por ano desde que o governo começou a medir.

Nos EUA, um levantamento do governo federal divulgado em setembro apontou que o número de mortes causadas por fentanil, um anestésico e analgésico opioide de acesso restrito, aumentou 540% em três anos - foi de 3 mil, em 2014, para 20 mil, em 2017.
O relatório mostra que a epidemia atinge diferentes partes do país. A presença constante do vício em opiáceos sobrecarrega governos estaduais, que precisam deslocar cada vez mais recursos para remediar o problema.

A explosão no uso dessas substâncias, no entanto, não chegou ao Brasil. Aqui o problema é outro.
O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas disponível, feito em 2012 pela Unifesp, apontava que 1,8 milhão de pessoas já haviam experimentado crack no país, enquanto a cocaína havia sido usada por 5,6 milhões. Já a Pesquisa Nacional sobre o Crack feita pela Fiocruz em 2013 revelou que havia cerca de 370 mil usuários regulares de crack nas capitais.

Nenhum dos levantamentos aponta presença relevante de heroína. O estudo feito pela Unifesp nem cita a droga. E só 0,84 dos usuários de crack já experimentaram heroína e outros opioides, de acordo com a pesquisa da Fiocruz.
"A heroína tem prevalência muito baixa independentemente do estrato social - em diferentes classes sociais, gêneros, idade, formação", explica o pesquisador Francisco Inácio Bastos, principal especialista em drogas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do estudo sobre o crack.
Como conseguimos escapar ilesos desse problema?

Veteranos de guerra

A heroína é derivada do ópio - droga originária da Ásia que já era conhecida na Europa há milênios quando um tratado proibiu sua comercialização, em 1912.
Produzida através da mesma planta, a papoula, a heroína foi sintetizada pela primeira vez pelo químico britânico Charles Romley Alder Wright, no fim do século 19.
Foi distribuída como remédio para dor pela empresa farmacêutica Bayer durante mais de uma década nos Estados Unidos e na Europa, até relatos de que a substância era viciante levaram também à sua proibição, nos anos 1910.
A partir daí, ela continuou a ser produzida ilegalmente e se tornou um problema na Europa.

Já nos EUA, o grande mercado para a heroína se formou nos anos 1970, segundo Guaracy Mingardi, especialista do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ex-subsecretário nacional de segurança pública.
"Os soldados que lutaram na Guerra do Vietnã (1955-1975) começaram a voltar viciados. Eles também tinham conhecido e criado relacionamentos com os traficantes, o que ajudou a disseminar a droga", afirma.
No Brasil, nunca se criou essa demanda, segundo Mingardi. Ele explica que o tráfico muitas vezes se utiliza das rotas comerciais existentes – e o menor número de rotas entre Brasil e Ásia nesse período ajudou a inibir a disseminação da droga.

Muito longe da Ásia e das rotas de distribuição, o Brasil acaba recebendo heroína muito raramente – e a preços muito mais altos.A estimativa dos especialistas é que a droga esteja custando U$ 150 (R$ 450) por 1g. Como comparação, uma pedra de crack custa em torno de R$ 10 na cracolândia paulistana.

"A questão do preço e da distribuição é muito importante. No caso da cocaína, por exemplo, estamos ao lado dos maiores produtores do mundo. Mesmo assim, a maior parte da cocaína consumida aqui, por exemplo, vem da Bolívia, porque a colombiana é mais cara e costuma ir para os EUA e a Europa", afirma ele.
O crime organizado brasileiro também não parece ter estratégias ou escala de distribuição de opioides.
"Pelos poucos registros de uso de heroína aqui é possível perceber que a droga não vem através do tráfico comum, dos mesmos distribuidores que vendem maconha, cocaína e crack", afirma Mingardi.
O médico Francisco Inácio Bastos, da Fiocruz, concorda com essa avaliação: "Não existe distribuição sistemática, é um ou outro estrangeiro que traz um pouco para cá".

Efeito colateral

Outro fator a ser levado em conta é que os brasileiros não têm um alto consumo de remédios anestésicos como os americanos, explica Bastos.
"Eles têm costume maior de consumir anestésicos e analgésicos por uma série de motivos: o país é mais rico, a população tem uma sobrevida maior em relação à doenças crônicas e reumáticas, o acesso é maior", diz o pesquisador.
Segundo ele, o hábito de consumir opioides legais acaba levando muitas pessoas ao vício. "Muitos remédios que são receitados acabam gerando um vício. As pessoas ficam dependentes de (substâncias opioides como) fentanil, metadona e oxicodona. Depois que a quantidade receitada acaba, na dificuldade de conseguir as drogas – vendidas só com prescrição médica – a pessoa acaba comprando heroína na rua, porque ela tem efeitos parecidos", diz Bastos.
Em 2015, um terço dos americanos recebeu prescrição para usar esse tipo de medicamento, segundo dados do governo federal dos EUA.

Outra explicação possível para a menor incidência de heroína no Brasil é que os maleficíos da droga foram muito divulgados em campanhas contra o seu uso – principalmente a partir dos anos 1980, quando houve um pico de consumo no mundo.
A validade dessa tese, no entanto, é questionável se considerada a quantidade de publicidade negativa feita sobre o crack e o fato de que o uso dessa droga apenas se intensificou desde os anos 1990.

A heroína é uma droga depressora. Gera uma sensação de euforia intensa seguida por um período de sedação, e é rapidamente viciante. Usada continuamente, causa insônia, disfunção sexual, enfraquecimento do sistema imunológico e pode desencadear doenças psicólogicas e lesões cerebrais.
Conforme o corpo se acostuma com a substância, necessita de doses cada vez maiores para obter a mesma sensação - por isso a droga tem um alto índice de overdose.
"As classes baixas consomem o crack, que é mais barato. Nas classes médias, que teriam poder aquisitivo para consumir o produto, a reputação da droga pode ter um papel em suprimir o uso", diz Bastos.
"É um círculo virtuoso - não existe demanda, então os traficantes não trazem. E como não existe distribuição, as pessoas não viciam", diz. "Um problema a menos para a gente se preocupar."

Fonte: BBC Brasil - 01/11/2017

78% das mortes têm relação com o tráfico de drogas, diz secretária de segurança do RN

Por G1 RN

Diante da marca histórica de duas mil mortes em menos de um ano,a secretária de Segurança Pública do Rio Grande do Norte atribui a maior parte delas ao tráfico de drogas e às disputas entre facções criminosas, que dependem desse mercado ilegal. Do total de assassinatos, cerca de 78% estão relacionados com isso, afirma Sheila Freitas.

A secretária aponta o enfrentamento ao tráfico de drogas como principal passo para que o estado possa diminuir a violência nos próximos anos, mas considera que precisa de recursos e policiais suficientes para isso.
"Quando a gente faz um trabalho direto contra o tráfico de drogas, a gente reduz as mortes. Foi o que aconteceu em Parnamirim", diz a titular da pasta. Sheila afirma que o município da Grande Natal teve a criminalidade reduzida após uma série de operações policiais que desarticularam grandes quadrilhas. O problema é que o negócio migra.

Neste ano, Ceará-Mirim, também na região metropolitana da Grande Natal, despontou com uma alta de homicídios, atribuídos pelas autoridades policiais ao tráfico. Além disso, a começar pela morte de 26 apenados na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, o ano contou com muitas chacinas e casos de múltiplas mortes, lembrou Sheila, ligados também a essas disputas.

A secretária afirma que a polícia vem trabalhando sobre as manchas criminais (regiões com mais estatísticas de criminalidade), porém conta com poucos policiais. "O Estado tem um plano, mas não tem como torná-lo efetivo sem pessoal", comenta.

Sobre essa demanda, ela afirma que o estado só poderá apresentar melhor resposta no segundo semestre do próximo ano. Até o fim de outubro, ela afirma, deverá ser lançado o edital com mil vagas para policiais militares. Os primeiros 500 devem ser convocados logo em seguida para o curso de formação e chegarem às ruas no segundo semestre do próximo ano.

Quando o assunto são os recursos financeiros, a pasta aguarda a liberação de um empréstimo do governo do estado com a Caixa Econômica Federal no valor de R$ 698 milhões. Desse total, R$ 50 milhões serão destinados para a Segurança, na recuperação de prédios e compras de materiais para as polícias e para o Corpo de Bombeiros. Porém ainda não há expectativa de quando esse dinheiro será liberado.

Perfil da vítima

De acordo com a Secretaria de Segurança do RN, o perfil da vítima de assassinato no RN é homem jovem, com idade entre 19 e 24 anos, solteiro, pobre, vítima de arma de fogo em 90% dos casos. "Estamos preocupados com o crescimento das mortes de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos", diz Sheila.

Fonte: UNIAD - 27/10/2017
Qual profissional deve cuidar da saúde mental do meu filho?

Por Luis Augusto Rohde

Colaboração de: Maria Lucrécia Zavaschi, professora aposentada de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre; e de Guilherme Polanczyk, professor livre docente de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade de São Paulo (USP).

Ô perguntinha difícil! Nas conferências que faço pelo Brasil afora para pais e professores sobre transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e outros problemas de saúde mental de crianças e adolescentes, essa questão é uma das mais frequentes. O pediatra pode avaliar e tratar essas condições? Procuro um neuropediatra, psicólogo ou psiquiatra da infância e adolescência?

Indicação em primeiro lugar?

Dados de pesquisa nos Estados Unidos indicam que a escolha de um médico se dá ainda pelo conhecido método de boca a boca, mesmo nos dias atuais onde, para quase tudo, as pessoas fazem uma vasta pesquisa na web. Ainda que a escolha de um profissional possa estar restrita àqueles que são parte do convênio do paciente, a indicação de familiares ou amigos, em primeiro lugar, e a indicação de outro médico, em segundo lugar, deixam a escolha por dados do profissional disponíveis na web a léguas de distância.

Temos que convir que esse não parece ser um método muito criterioso de escolha; o que é bom para o filho de um amigo pode não ser o melhor para o nosso! A opinião de um médico sobre o outro nem sempre está baseada no conhecimento das habilidades clínicas do colega.

Soma-se a isso um outro aspecto. Essa é uma área onde há espaço não auditado para qualquer intervenção e muitos profissionais julgam possuir a verdade, sem apresentar os prós e contras das suas orientações, numa postura muito longe de científica.

Cada profissional irá abordar o problema de uma maneira

Costumo usar um exemplo com meus alunos de pós-graduação. Vamos pensar no caso de um menino de 7 anos com enurese noturna primária (i.e., faz xixi na cama desde sempre), morando com ambos os pais que têm um casamento instável e com uma irmã de 4 anos. Se os pais preocupados com o problema levarem a criança para um pediatra, neuropediatra ou psiquiatra estritamente biologicamente orientado, muito provavelmente irão sair da consulta com uma receita de uma entre três medicações (imipramina, DDAVP, oxibutinina).

A mesma família, nas mãos de um psicólogo que trabalha estritamente no referencial cognitivo-comportamental, ingressará num atendimento para condicionamento comportamental com um alarme urinário (dispositivo que é acionado quando a primeira umidade de urina aciona o sensor que emite um som acordando a criança), ou iniciará calendários com nuvenzinhas de chuva ou soizinhos associados a reforço positivo, na medida em que a criança consiga aumentar o controle.

Se a mesma família for ao consultório de um psiquiatra ou psicólogo que trabalha num referencial sistêmico de terapia familiar, ouvirão que a criança é o paciente identificado e que a enurese é a expressão da instabilidade da relação dos pais e, portanto, o tratamento deve ser uma intervenção com toda a família. Por fim, nas mãos de um terapeuta de orientação estrita analítica, terão a indicação de uma psicoterapia individual com o entendimento que a enurese está associada a questões edípicas mal resolvidas com o nascimento da irmã e que a criança está expressando dessa forma a sua raiva. Complicado, não? Como decidir em que porta bater?

Afinal, como decidir?

Como esta questão é complexa, mexe em questões de classe e não é estritamente baseada em evidência científica, resolvi pedir ajuda para os “universitários”. No meu caso, duas pessoas que eu respeito muito na área de saúde mental de crianças e adolescentes. A eterna professora de psiquiatria da Infância e Adolescência da UFRGS, Maria Lucrécia Zavaschi, e o professor de psiquiatria da Infância e Adolescência da USP, Guilherme Polanczyk. Eis as nossas sugestões.

1º passo: Informe-se sobre o que lhe parece ser o problema que seu filho(a) tem. Uma boa alternativa pode ser, sim, a web! O importante aqui é separar o joio do trigo. Os sites de associações de portadores ou familiares da condição são valiosos. Mesmo que inglês não seja a sua praia, valha-se de uma ferramenta de tradução e pesquisa em sites ingleses, americanos, canadenses e australianos. Sites oficiais do National Institute of Mental Health nos Estados Unidos, do National Institute for Health and Care Excellence na Inglaterra são excelentes alternativas, assim como sites das associações de pediatria, psicologia, psiquiatria da infância e adolescência, e neuropediatria desses países. Para crianças de até três anos de idade, o site “Zero to Three” é um ótimo recurso.

2º passo: Volte a sua realidade (região ou convênio) e descubra, dentro de suas possibilidades, quem é a pessoa com maior formação e experiência em problemas de comportamento e emocionais de crianças que você pode ter acesso. Se você já conseguiu delimitar bem o problema do seu filho(a), pode ser alguém com a maior experiência nesses problemas. Mas, atenção, esse profissional pode não ser o que irá cuidar do seu filho(a)! Ele será aquele que irá indicar o caminho a ser seguido e com quem você irá discutir tudo que aprendeu na etapa acima.

Algumas dicas para incrementar o velho método do boca a boca, já que não teremos como escapar dele nesse momento. Procure se certificar que ele(a) conhece profundamente desenvolvimento normal de crianças para saber diferenciar o que é patológico do que não é, e se transita por diversos referenciais teóricos (biológico, cognitivo-comportamental, psicanalítico, familiar), mesmo que trabalhe mais focado em um. Afinal, ele irá definir se seu filho(a) precisa ou não de tratamento e, em caso positivo, de que modalidade (medicação, intervenção familiar, uma entre as diversas modalidades de psicoterapias individuais ou combinação de intervenções).

Mas por que gastar tempo e dinheiro com um profissional que talvez seja intermediário? Pela longa formação e experiência clínica, esses profissionais têm normalmente uma noção mais ampla e profunda do campo de atuação e dependem menos das indicações de colegas. Finalmente, com frequência, preenchem um requisito importante lembrado por um renomado psicanalista: precisam menos do paciente do que o paciente deles!

Em resumo, reúnem conhecimento de causa e liberdade para orientar aqueles que os procuram. Isso é fundamental numa área onde os parâmetros são muito subjetivos. Mas então porque não ficar com esse profissional? Normalmente, eles são mais caros, podem não ter a disponibilidade que você e seu filho(a) precisam e, mais importante, podem não ter o treinamento na técnica mais indicada para o seu filho.

Não saia da consulta sem entender muito bem o problema do seu filho, quais as evidências científicas dos diferentes tipos de tratamento e com pelo menos duas indicações de profissionais na modalidade definida. Vale a pergunta final: se fosse seu filho(a), nas condições que discutimos, qual modalidade de tratamento você indicaria e quais são as duas melhores opções de profissionais?

3º passo: Converse com os dois profissionais indicados. Um estudo recente sobre o melhor tratamento para depressão em adolescentes mostrou que três técnicas psicoterápicas completamente diferentes tiveram resultados muito similares após 1 ano de intervenção. Isso parece sugerir que elementos inespecíficos como empatia e real engajamento no cuidado do paciente possam ser até mais importantes do que elementos específicos que são caraterísticos de cada técnica. Nessa etapa, a sua percepção vai ajudar na escolha final.

Muito complicado? Demorado? Pois é, o risco da decisão rápida ou só embalada pela opinião dos outros é seu filho tomar uma medicação que não precisa ou ficar anos em terapia com um profissional que precisa mais dele do que ele do terapeuta!

Luis Augusto Rohde é professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor da pós-graduação em Psiquiatria na Universidade de São Paulo

Fonte: VEJA - 22/10/2017

Proibição da publicidade de bebidas alcoólicas pode prevenir uso de drogas, dizem especialistas

Agência Câmara de Notícias
Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Pedido para realização do debate foi da deputada Flávia Morais (PDT-GO).

Acesso de menores a bebidas alcoólicas e publicidade de cervejas foram citados como fragilidades da política de prevenção ao uso de drogas.

Especialistas defenderam a proibição da publicidade de bebidas alcóolicas, em audiência pública da Comissão de Legislação Participativa da Câmara para debater políticas para o combate e prevenção ao uso de drogas, nesta terça-feira (03/10/2017).

Segundo o Ministério da Saúde, 12% das mortes no Brasil estão relacionadas ao abuso de tabaco ou de bebidas alcoólicas. Assessora técnica da Coordenação Geral de Saúde Mental Álcool e outras Drogas, do Ministério da Saúde, Cinthia de Araújo ressaltou que é preciso tornar a legislação mais efetiva. Ela apontou, por exemplo, fragilidades relacionadas ao acesso de bebidas alcoólicas por menores de idade. Um dos focos dos trabalhos de prevenção, segundo a assessora, é inibir o uso precoce das drogas.

"Infelizmente, a proibição da publicidade não engloba as cervejas, que geralmente são as bebidas alcoólicas de iniciação dos jovens. Assim, os jovens continuam muito expostos a esse estímulo ao consumo inicial de álcool”, ressaltou. Cinthia informou ainda que no ranking de práticas para prevenção ao uso de drogas, a legislação está em primeiro lugar e as campanhas em último.

Secretário-Executivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Cristiano Maronna, considera importante uma legislação que restrinja e previna o uso abusivo de bebidas alcoólicas.

"Eu espero que o Congresso nacional tenha coragem de enfrentar esse tema e tome a única atitude responsável em relação a isso, que é banir definitivamente a propaganda de bebidas alcoólicas dos meios de comunicação. Não faz nenhum sentindo, estimular o consumo de uma droga tão perigosa e tão nociva. Quem estuda política de drogas sabe que mercados criminais não regulados, como os das drogas ilícitas causam tanto dano quanto os mercados legais desregulados com promoção comercial, que é exatamente o caso das bebidas alcoólicas", ressaltou.

Diretor de Articulação e Projetos da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, do Ministério da Justiça, Cloves Benevides lembrou que a lei brasileira de restrição ao cigarro colocou o Brasil como país que mais reduziu o número de fumantes no mundo.

“Foi uma Lei que definiu espaços de proibição, restrições à publicidade, restrições ao patrocínio de eventos esportivos e culturais. Isso foi um ganho da sociedade brasileira. Com o uso crescente do álcool, é também o parlamento brasileiro que vai construir as respostas, legislativas e normativas", defendeu.

Primeiro vice-presidente da comissão, o deputado Chico Lopes (PCdoB-CE), informou que o colegiado poderá apresentar um projeto de lei com a medida. "Mas o assunto é complexo porque as bebidas são aceitas socialmente", avaliou. O deputado também destacou que é preciso uma política que não seja baseada na repressão, mas na ação integrada de profissionais da saúde com a participação da família.

Reportagem - Leilane Gama

Edição - Geórgia Moraes

Fonte: UNIAD - 11/10/2017

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos

Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil*

O suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil. Os dados são do primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, divulgado em 21/09/2017, pelo Ministério da Saúde, que mostram ainda que, em 2015, 65,6% dos óbitos nessa faixa etária foram por causas externas: violências e acidentes. A divulgação faz parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.

O oficial de justiça aposentado Ivo Oliveira Farias, perdeu a filha Ariele para o suicídio em 2014, quando ela tinha 18 anos de idade. Ele superou o tabu e a vergonha e hoje fala abertamente sobre o suicídio da filha e a importância da prevenção. “As pessoas não se matam porque querem morrer, mas para acabar com a dor, não para matar a vida. Para eles, a única alternativa de parar de sofrer é morrendo, elas querem acabar com a dor da depressão, do significado da existência. Elas estão em uma situação da qual não encontram uma saída e aí elas saem da vida como forma de resolver o problema”, disse.

Para ele, é preciso falar cotidianamente sobre suicídio, “até na mesa do bar”. “Aquela pessoa que está vivendo o drama, pode encontrar um caminho ali para buscar uma ajuda. A gente tem que conversar com as pessoas. Quando uma pessoa diz que quer se matar, a gente tem que acreditar. A maioria dá sinal, 9 em cada 10 dão sinal”, ressaltou.

Segundo a psicóloga e coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, Karen Scavacini Karen, os sinais de alerta muitas vezes só fazem sentido depois da morte e são muito complexos de serem observados e entendidos. Entretanto, ela mostrou preocupação com o aumento do suicídio entre jovens. Segundo Karen, é importante lembrar que o cérebro só termina de se formar aos 21 anos e que os jovens têm mais impulsividade, menor autocontrole e menor consciência crítica.

“Temos visto jovens que não têm tolerância à frustrações, fazendo alto uso de álcool de drogas, jovens isolados”, disse ela, explicando que as redes sociais são umas das causas desse isolamento e frustração. “Por mais que haja um contato virtual, o contato significativo tem diminuído. E tudo que ele vê no Facebook e na rede social, ele acha que é verdade e compara com a própria vida, porque nas redes sociais todas as pessoas aparentam estar feliz sempre”, disse.

A pressão com a carreira, a pressão em ser o melhor são preocupações que pesam aos jovens, segundo Karen. “E um vazio existencial. O próprio sentido da vida das pessoas”, ressaltou.

Fatores de risco

A psicóloga Karen cita ainda a mídia e as séries de TV, como 13 Reasons Why, do canal de streaming Netflix, que, para ela, têm uma grande influência sobre os jovens. “Quando o jovem se identifica com o personagem, aumenta o risco de contágio”, disse. Na série, a personagem principal comete suicídio e tenta explicar as suas razões.

“A série é muito boa em trazer esse assunto para a realidade das pessoas. No geral, as pessoas acham que suicídio só acontece na casa do vizinho. O problema é que a grande maioria dos jovens viu a série mas não teve como conversar porque os pais não viram. Não teve um diálogo aberto sobre tudo que aconteceu com a Hanna [personagem que cometeu suicídio]”, disse, argumentando que a própria série, que trouxe à tona a discussão, poderia mostrar as saídas, os caminhos para se receber ajuda.

Uma outra questão que também influencia os jovens é a descoberta da homossexualidade, quando eles assumem isso perante a família e a sociedade. “Dependendo da maneira como a situação é tratada é um fator de risco para o suicídio”, disse. “A decisão recente de que homossexualidade pode ser tratada, pode aumentar esse fator de risco. É um retrocesso grande”, explicou.

Karen explicou ainda que muitos transtornos mentais iniciam na adolescência e muitas vezes é difícil para a família entender que o jovem precisa de ajuda especializada e que não são só “sintomas” de adolescência. A demora em receber o tratamento adequado, o tabu e o preconceito das pessoas em procurar o psiquiatra e o psicólogo são problemas que precisam de atenção.

Para ela, existe uma dificuldade de acesso a serviços de saúde, tanto para tratamento de uso de substâncias, quanto para jovens com comportamentos suicidas.

Além disso, é preciso um tratamento mais humano pelos profissionais de saúde quando as pessoas conseguem acessar esses serviços. “Tenho relatos de pessoas que foram maltratadas em prontos-socorros ou pelo médico. E isso é uma coisa comum. Eles não têm a formação em prevenção”, disse. “É preciso sensibilizar os profissionais que eles estão lidando com dor, que o suicídio é a resposta a uma dor terrível que a pessoa não conseguiu outra saída”.

Tentativas repetidas

Um grande fator de risco para o suicídio são as tentativas anteriores. Segundo Karen, os primeiros 30 dias depois da alta é o período de risco aumentado porque não há uma continuidade no cuidado com essas pessoas. “O que levou uma pessoa a tentar suicídio foi um sofrimento intenso e isso não vai embora. É preciso continuidade em termos de tratamento psiquiátrico e psicológico para a aceitação, para que não haja novas tentativas”, explicou.

Ela ressaltou, entretanto, que quem tenta o suicídio não está fadado a repetir esse comportamento, mas precisam de tratamento adequado.

Karen contou que um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou diminuição no risco de tentativas repetitivas de suicídio com o acompanhamento telefônico das pessoas que tentaram suicídio após a alta hospitalar. “Isso poderia ser feito por qualquer pessoa treinada. Eles apenas ligavam para saber como o outro estava”, explicou. “O retorno para casa dessas tentativas é mais difícil e precisa ser acompanhado para que a pessoa possa seguir caminhos mais saudáveis”.

Sobreviventes enlutados

Os sobreviventes enlutados, familiares ou amigos de pessoas que cometeram suicídio também merecem atenção, segundo Karen. Ela coordena um grupo de apoio aos enlutados pelo suicídio. “Há um julgamento muito grande e um julgamento transferido, julga aquele que tenta o suicídio e, quando ele consegue, julga quem fica porque não viu os sinais. É preciso olhar para quem perdeu alguém com empatia”, disse.

O aposentado Ivo Farias frequenta o grupo coordenado por Karen, além de outros. “Você para de viver. Você luta para se manter vivo, a vida perde o significado e, no meu caso, o significado é lutar por essa causa [de prevenção ao suicídio]. A maioria fica no anonimato porque é julgado a todo instante pelas pessoas a sua volta”, disse.

Ele explicou que, mesmo que a pessoa saiba que não é culpada, ela se sente responsável pela pessoa que se foi. “Sente uma certa incompetência porque não conseguiu mantê-la viva. A grande maioria dos enlutados esconde”, explicou.

Para Ivo, quando mais se falar em suicídio menos as pessoas vão ter receio em procurar ajuda e pedir apoio. “Nós enlutados somos suicidas em potencial. No primeiro ano [após a morte da filha], eu passava em viaduto e ficava pensando em me jogar. É uma dor que não diminuiu. Ou você se fortace e busca uma alternativa ou você definha e morre. Quando se fala abertamente, se consegue falar a palavra, a gente consegue superar”, disse.

CVV

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, 24 horas todos os dias.

Ele atende pelo número de telefone 141 ou diretamente no posto regional. Em cidades sem posto de atendimento do CVV, as pessoas podem utilizar o atendimento por chat, skype e e-mail, disponíveis na página do CVV .

*Colaborou Ivan Richard

Edição: Valéria Aguiar

Fonte: Agência Brasil - 23/09/2017

"Depressão - Vamos conversar" é o tema escolhido da campanha da OMS para o dia mundial da saúde de 2017

*Por Adriana Moraes

No dia 07 de abril comemora-se o Dia Mundial da Saúde, data criada com a finalidade de alertar a população a respeito dos vários aspectos que envolvem a saúde. Este ano o tema escolhido da Campanha Anual da OMS (Organização Mundial da Saúde) foi depressão. Com o lema “Let’s talk” (“Vamos conversar”, em português), a iniciativa reforça que existem formas de prevenir a depressão e também de tratá-la, considerando que ela pode levar a graves consequências, até mesmo o suicídio.
Todos os anos são realizadas campanhas a respeito de um tema diretamente relacionado com a saúde. O principal objetivo desta data é conscientizar as pessoas sobre a importância da preservação da saúde para ter uma melhor qualidade de vida.

Relembre alguns temas do Dia Mundial da Saúde:
- Diabetes;
- Do campo à mesa, obtendo alimentos seguros;
- Prevenindo doenças transmitidas por vetores;
- Resistência aos antimicrobianos;
- A saúde urbana é importante;
- Salvar vidas – Hospitais seguros em situações de emergência;
- Proteção da saúde das alterações climáticas e outros temas diversos.


Tema de 2017: Depressão

A depressão resulta de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolver depressão. [1]

Segundo a definição da OMS, a depressão é muito mais que um acesso de melancolia. Trata-se de um transtorno mental no qual o afetado mostra "uma tristeza permanente e uma perda de interesse pelas atividades que as pessoas costumam desfrutar, acompanhadas da incapacidade de realizar tarefas diárias, durante duas semanas ou mais". [2]

Do ponto de vista psicopatológico, os quadros depressivos têm como elemento central o humor triste. Num episódio depressivo grave, podem ocorrer sintomas psicóticos como delírio (uma ideia ou um pensamento que não corresponde à realidade, o delírio é um juízo falso, seu conteúdo é impossível) e alucinação (a percepção clara e definida de um objeto “voz, ruído, imagem” sem a presença do objeto estimulante real).

O Brasil tem a maior taxa de pessoas com depressão na América Latina e uma média que supera os índices mundiais. Dados publicados pela OMS apontam que 322 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa 4,4% da população do planeta. [3]

A depressão é responsável por retirar do mercado de trabalho milhares de profissionais todos os anos. Em 2016, 75,3 mil trabalhadores foram afastados em razão do mal, com direito a recebimento de auxílio-doença em casos episódicos ou recorrentes. Eles representaram 37,8% de todas as licenças em 2016 motivadas por transtornos mentais e comportamentais, que incluem não só a depressão, como estresse, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia e transtornos mentais relacionados ao consumo de álcool e cocaína. [4]

Sintomas da depressão

Em entrevista para a Revista Exame, o psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva, Presidente da APAL (AssociaçãoPsiquiátrica da América Latina), explicou que a tristeza e o desânimo podem ser sintomas da depressão, mas não são os únicos, é possível haver sinais físicos, como perda ou ganho de peso, dores inexplicáveis no corpo e insônia ou sonolência em excesso. Entre os sintomas psíquicos estão: desânimo intenso, cansaço, apatia, falta de vontade de fazer suas tarefas, falta de prazer, de alegria, choro fácil, temperamento explosivo, irritabilidade. [5]

O psiquiatra alertou também que, em cada 100 pessoas com depressão grave, 15 cometem suicídio. O número é preocupante, mas pode ser revertido se preconceitos forem combatidos e informações forem divulgadas.

Depressão e uso de álcool

Os problemas relacionados ao álcool e depressão são as duas doenças psiquiátricas, isoladamente, mais comuns encontradas na população. Também estão entre as doenças que mais custam aos cofres públicos. Pela grande capacidade de o álcool produzir sintomatologia semelhante à da depressão e também de mascará-la, o diagnóstico desta deve ser feito com cautela e de preferência após um período de abstinência.
Em geral, a depressão antecede o surgimento da dependência do álcool, principalmente em mulheres, porém, na maioria das vezes, é difícil determinar o transtorno primário e o secundário, visto que há interferência entre os transtornos depois de instalada a comorbidade. [6]


Depressão - Tratamento

Uma das principais dificuldades enfrentadas por quem sofre de depressão é fazer com que os outros entendam que ela não é “frescura”, mas uma doença como outra qualquer, por exemplo, a hipertensão ou diabetes. Essa patologia precisa ser tratada por um psiquiatra, capaz de orientar e, se necessário, medicar adequadamente o paciente. Existem tratamentos eficazes para depressão moderada e grave.

Não é fácil decidir qual tratamento da depressão adotar.Profissionais de saúde podem oferecer tratamentos psicológicos, como ativação comportamental, terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia interpessoal, os médicos psiquiatras indicam os medicamentos antidepressivos. A psicoterapia em conjunto também pode ser muito útil, mas o tratamento médico é essencial.

Encerro com a frase do psiquiatra Augusto Cury: “ Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”

*Adriana Moraes - Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:
[1]https://nacoesunidas.org/depressao-e-tema-de-campanha-da-oms-para-dia-mundial-da-saude-de-2017/
[2]http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/03/1871343-depressao-e-a-maior-causa-de-incapacitacao-no-mundo-diz-oms.shtml
[3]https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2017/02/23/brasil-e-o-pais-mais-depressivo-da-america-latina-revela-oms.htm
[4]http://oglobo.globo.com/economia/mais-de-75-mil-pessoas-foram-afastadas-do-trabalho-por-depressao-em-2016-20913028
[5]http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/6-fatos-sobre-depressao-que-todo-mundo-precisa-saber/
[6] Dependência Química: prevenção, tratamento e políticas públicas / Alessandra Diehl – Daniel Cruz Cordeiro – Ronaldo Laranjeira - Porto Alegre: Artmed, 2011.

Fonte: UNIAD - 08/04/2017

O que falta às crianças e jovens viciados em tecnologia?

O uso de dispositivos tecnológicos por crianças e jovens está longe de ser prejudicial. Se bem orientado, pode estimular a criatividade, o raciocínio lógico, a colaboração, a capacidade de pesquisa e outras competências valiosas para o mundo contemporâneo. No entanto, é preciso moderação. O aumento da dependência de eletrônicos tem preocupado pais e educadores do mundo todo.

O fato de que boa parte das tarefas cotidianas envolve cada vez mais tecnologia torna difícil definir esse equilíbrio. É comum que, mesmo entre os adultos, a distinção entre o trabalho e o lazer se faça apenas pela troca de aplicativos: fecham-se o e-mail e os programas do computador, abrem-se as redes sociais.

Da mesma forma, as crianças usam tecnologias na escola e ao fazer os deveres de casa. Depois, vão para os jogos e as mensagens digitais – muitas vezes, sem nem sair do quarto. Passam os dias, uns e outros, plugados em monitores. Até que, em alguns casos, o hábito se transforma em dependência.

Entre crianças e jovens, as consequências do uso excessivo de eletrônicos se percebem tanto em problemas físicos (tendinites, sobrepeso), como também mentais e emocionais (isolamento social, dificuldade de concentração, transtornos do sono), com reflexo também nos resultados escolares.

Como no caso de qualquer outro vício ou compulsão, a questão central é detectar o que está na origem do distúrbio. No caso das crianças e adolescentes, algumas das hipóteses a investigar são:

- Falta de motivação: Por que as outras dimensões da vida não lhe provocam o mesmo interesse e fascínio que um aparelho tecnológico?

- Carência nos relacionamentos: Existem lacunas ligadas à afetividade que os dispositivos eletrônicos estão ajudando a compensar?

- Falta de limites: Como é feita a organização da rotina de estudo e lazer e de que forma a família controla o cumprimento saudável das normas?

- Influências dos amigos: Estar plugado dia e noite, participar de jogos e das redes sociais é sinal de status e até uma necessidade para ser aceito no grupo?

Como prevenção, o exemplo da família é fundamental. Os pais precisam evitar usar os dispositivos para tranquilizar a criança, para que fique quieta por algumas horas, e evitar que as crianças se isolem jogando durante as refeições. Há que dosar a compra de novos jogos, pois o momento em que a criança se cansa de um deles é a oportunidade de alternar com atividades fora da web.

Vale marcar um horário para o uso e garantir que seja respeitado. Uma experiência interessante é a negociação de horas de uso de eletrônicos com outras tarefas, por exemplo: se arrumar o quarto, ganha mais quinze minutos de internet. E o principal, sobretudo com crianças: participar das atividades digitais junto com elas. Não só para monitorar, mas porque o relacionamento com os pais, em atividades desfrutadas em comum, pode ser o melhor dos presentes.

Fonte: G1 - 14/01/2017

Estudo genético confirma associação da maconha com esquizofrenia

Revista Veja

Um estudo genético feito por pesquisadores britânicos mostrou que pessoas com esquizofrenia são mais propensas a fazerem uso de maconha de forma abusiva e de desenvolverem sintomas psicóticos. (iStock/Getty Images)

Pesquisa publicada recentemente no periódico científico Psychological Medicine comprovou por meio de análises genéticas o que estudos anteriores já haviam sugerido de forma observacional: o consumo da maconha é particularmente perigoso para pessoas com propensão genética à esquizofrenia, mas, principalmente, que os esquizofrênicos tendem a usar mais a droga.

Evidências genéticas

No novo estudo, pesquisadores da Escola de Psicologia Experimental da Universidade Bristol, no Reino Unido analisaram fatores genéticos que podem prever se uma pessoa é suscetível a usar cannabis e também sua suscetibilidade à esquizofrenia. Os resultados confirmaram que começar a fumar maconha pode sim aumentar o risco de esquizofrenia, mas, em especial, uma pessoa que carrega genes associados à doença são mais propensas a se tornarem usuárias da droga e a fazer isso de forma abusiva.
Uma das possíveis explicações para essa relação, segundo os autores, é que os fatores genéticos para a esquizofrenia são mais fortes do que aqueles para o uso da cannabis.

Marcus Munafò, coautor do estudo, especula também que “certos comportamentos ou sintomas associados ao risco de esquizofrenia podem ser aliviados pelos efeitos da cannabis”. Em outras palavras, o consumo de cannabis pode ser uma espécie de automedicação nessas pessoas.
Outra possível explicação, segundo o especialista, é que “as pessoas com maior risco de esquizofrenia podem desfrutar mais dos efeitos psicológicos da cannabis. Há um consenso crescente de que o consumo de cannabis pode aumentar o risco de desenvolver esquizofrenia. Nossos resultados apoiam isso, mas também sugerem que aqueles com maior risco de esquizofrenia podem ser mais propensos a experimentar cannabis”.

Maconha e esquizofrenia

Estudos anteriores já haviam mostrado que o consumo de maconha é mais comum em pessoas com psicose do que entre a população em geral e que, em muitos casos, esse hábito também pode aumentar o risco de sintomas psicóticos. O uso da droga já foi associado a sintomas do distúrbio, como paranoia e pensamentos delirantes, em até 40% dos usuários.
No início desse ano, de acordo com o site especializado Medical News Today, pesquisadores alertaram que pessoas jovens que usam cannabis poderiam aumentar seu risco de desenvolvimento de problemas psicóticos. Além disso, pessoas com esquizofrenia parecem ter uma maior chance de experimentar sintomas psicóticos ao usarem a droga. Entretanto, até o momento, esses resultados não foram considerados definitivos e especialistas pediram mais pesquisas.

THC versus CBD

Em relação ao papel da maconha em aumentar ou reduzir os sintomas de esquizofrenia, Munafò afirma que, embora sejam necessários mais estudos, pesquisas existentes sugerem que dois dos constituintes da cannabis, o tetrahidrocannabinol (THC) e o canabidiol (CBD), podem ser os responsáveis por esses efeitos contraditórios.
De acordo com o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas dos Estados Unidos (Nida, na sigla em inglês), enquanto a intoxicação por THC tem sido associada com experiências psicóticas transitórias, o CBD não desencadeia alterações mentais e pode ter potencial como uma medicação. Entretanto, a maconha “recreacional” tem um alto teor de THC e baixo de CBD, daí sua provável contribuição para o aumento de sintomas psicóticos em pessoas propensas à esquizofrenia.

Esquizofrenia

O distúrbio mental é caracterizado quando há perda de contato com a realidade, alucinações (audição de vozes), delírios, pensamentos desordenados, índice reduzido de emoções e alterações nos desempenhos sociais e de trabalho. A esquizofrenia afeta cerca de 1% da população mundial. O tratamento é feito com uso de remédios antipsicóticos, reabilitação e psicoterapia.

Fonte: UNIAD - 06/01/2017

Grupos de mútua-ajuda no Brasil:

Um recurso terapêutico, uma rede disponível

Se valorizarmos o poder destas forças para apoiar a prevenção e o tratamento, será possível desenvolver novos e poderosos caminhos para reduzir o sofrimento causado pelo uso e abuso de drogas.

Qualquer que seja a linha de pensamento seguida pelos profissionais da saúde em relação ao tratamento de pessoas que tenham desenvolvido dependência de substâncias psicoativas, não se despreza a importância dos grupos de autoajuda no trabalho a longo prazo e redução das recidivas.

Infelizmente, está bastante claro que, no Brasil, os grupos de mútua ajuda são subaproveitados. Informações superficiais, livros de difícil acesso, poucos estudos materializam, no meio leigo e acadêmico, uma visão distorcida sobre os chamados Grupos Anônimos ou de mútua ajuda, criando obstáculos para se trabalhar em rede e ajudar o paciente em vários momentos do tratamento.

Grupos_de_mutuaajuda

Grupos_AutoAjuda

FONTE: UNIAD - 20/08/2011

A montanha russa da dependência química

Ser Psicólogo e trabalhar com dependentes químicos muitas vezes assemelha-se a dar uma volta em uma montanha russa, quando somos tomados por inevitável ansiedade e sensação de impotência, uma vez que não temos nenhum controle sobre as ações daquele brinquedo, só nos restando torcer para que tudo acabe bem. Atuar no mundo da dependência química exige do profissional, nervos de aço, já que não é exceção sermos surpreendidos com notícias desagradáveis após um período de franca calmaria.
Dependência química é uma doença bastante complexa e desafiadora para nós profissionais, quer seja pelos agentes determinantes na sua aparição, pela particularidade individual da sua evolução ou pelo intrincado caminho que possa levar à recuperação.
Esta enfermidade faz parte do roll das patologias crônicas, ou seja, seu portador conviverá por toda a vida com essa doença, entretanto isso não significa que não poderá levar uma vida normal, contanto que se abstenha totalmente do consumo de álcool ou qualquer outra droga.
Fatores biológicos, psicológicos e sociais estão no cerne do desenvolvimento desta doença. Predisposição genética, traumas na infância e ambientes permissivos são alguns dos eventos que originam o aparecimento da dependência química.
Em maior ou menor grau, as consequências vivenciadas por seus portadores também são de ordem biopsicossocial. Fisicamente podem sofrer desde uma desnutrição, doenças como diabetes, hipertensão, úlcera, até uma cirrose hepática ou um acidente fatal. Dificuldade para concentrar-se, irritabilidade e transtornos mentais são algumas das consequências psicológicas que a doença pode causar. As consequências sociais referem-se, geralmente, a conflitos familiares ou amorosos, problemas judiciais, baixo rendimento escolar e dificuldades no trabalho.
Em relação ao tratamento, com exceção do aparecimento de algum novo medicamento, nenhuma novidade tem surgido, além das instituições governamentais e de empresas públicas e privadas, as quais têm se mobilizado para encontrarem a melhor forma de prevenir ou minimizar o uso de drogas e suas consequências. Todavia, sobre o tratamento, alguns princípios já são consenso entre os profissionais de saúde que atuam nesta área e, dentre eles, destacam-se: o tratamento não precisa ser voluntário para ser eficaz; um único tipo de tratamento não é indicado para todos os indivíduos; terapias comportamentais são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades para resistir ao uso de drogas; medicações são elemento importante no tratamento de vários pacientes; o envolvimento da família  no tratamento ajuda significativamente; por ser uma doença recorrente, muitas vezes serão necessárias, durante o tratamento, várias intervenções e tentativas de abstinência.  
Somente o profissional que penetra no universo complexo, mas também fascinante, que é o trabalho junto a dependentes químicos e seus familiares, percebe as semelhanças vividas em brincar na montanha russa com seu trabalho. Portanto, da mesma forma que é recomendado o respeito às normas de segurança no parque de diversão, quando se brinca na montanha russa, cabe ao psicólogo sempre agir dentro dos princípios éticos que regem sua profissão, orientando-se por indicações cientificamente comprovadas. Assim os sustos ocorrerão exclusivamente devido aos efeitos causados pelo brinquedo e não em decorrência ao mau uso do mesmo.

Marcos Antonio Manfredini

Publicado em: Gazeta do TATUAPÉ - ZONA LESTE - 9 a 15 de janeiro de 2011

Marcos A. Manfredini fala à Revista IN

Caminho com volta

Drogas: um mal que atinge toda a família
Data: 20/06/2010

A personagem vivida pela atriz Sandra Bullock no filme “28 dias” não via omo um problema o excesso de bebidas alcoólicas que ingeria. Após dirigir embriagada e bater o carro, em plena festa de casamento de sua irmã, ela percebeu o quanto era dependente do álcool e como sua vida havia tomado um caminho completamente diferente do planejado. Disposta a mudar, aceitou o tratamento de 28 dias em uma clínica, ensinando uma grande lição: a importância de pedir ajuda quando não é possível abandonar o vício sozinho.

Um dia para dizer não
No próximo dia 26, será comemorado o Dia Internacional de Combate às Drogas, data que estimula o debate sobre esse problema que afeta a sociedade. O uso desses tipos de substâncias, capazes de alterar as sensações, é antigo; acredita-se que desde a época dos homens das cavernas era recorrente as suas utilizações. Porém, com o passar dos anos, o número de usuários e a quantidade consumida só apresentam crescimento e a epidemia parece estar longe de ser sanada.

Segundo o psicólogo da Clínica Lema: Vida e Saúde, Marcos Antonio Manfredini, existem três classificações de drogas: as estimulantes como cocaína, nicotina e cafeína; depressoras como o álcool e os calmantes; e deturpadoras como a maconha e o LSD. “No início, o usuário busca o prazer, depois que vicia recorre à droga para não sentir o desprazer”, explica.

Problema mundial
A ONU - Organização das Nações Unidas, afirma que o tráfico movimenta U$ 400 bilhões por ano e se tornou uma ameaça global. O relatório do Departamento Internacional de Controle de Narcóticos da ONU trilhou o mapa da droga e apontou que a maior parte vem da América Central e do Caribe.

Na América do Sul houve uma diminuição do nível de produção, mas a Venezuela se tornou uma grande exportadora, inclusive para o Brasil. De acordo com a Organização, mais de 5% dos estudantes brasileiros do Ensino Médio já fizeram uso de drogas.

Abismo crucial
De acordo com Manfredini, a dependência química ocorre em três esferas. Num primeiro momento, o usuário desenvolve uma tolerância ao consumo, fazendo com que precise aumentar sempre as doses. Após essa fase, seus pensamentos giram em torno da droga ou do desejo de experimentar mais ou até de parar; e por fim, a destruição da vida social.

O vício pode ser estabelecido sob diversos aspectos, dentre eles estão o fator genético e os problemas psicológicos, ambientais e psiquiátricos. “A doença é caracterizada por ser multifatorial, ou seja, dois ou mais destes elementos”, ressalta.

No caso do fator genético, há uma predisposição para o desenvolvimento da doença. No psicológico, o indivíduo cresceu num lugar marcado por brigas ou até sofreu algum abuso. Já no ambiental, ele conviveu num lar em que era comum o uso, enquanto no psiquiátrico, a pessoa tem ou está desenvolvendo uma patologia como a Depressão e procura na droga a solução.

Convívio
O especialista afirma que a participação da família na trajetória é fundamental, aumentando, consideravelmente, as chances de sucesso no tratamento. É preciso ficar atento às mudanças de comportamento de entes queridos e, caso não saiba lidar com a situação, faça como a personagem da história e procure ajuda.

Clínica Lema: Vida e Saúde - R. Pe. Estevão Pernet, 160 - Cj. 408 - F: 2769 5233

Crédito da matéria: Revista IN


 

 

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