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Marcos Antonio Manfredini
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ARTIGOS E NOTÍCIAS SOBRE DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Pesquisa com crianças no centro de SP revela acesso fácil a drogas, agressões e fome

SÃO PAULO - Uma pesquisa realizada com crianças e adolescentes que vivem no centro de São Paulo revela acesso fácil e precoce a álcool e drogas, além de uma situação de vulnerabilidade evidenciada por trabalho infantil, agressões e fome. Os dados mostram que mais da metade dos jovens que vivem na Cracolândia dizem que as drogas chegam a eles por meio de terceiros e que não precisam sequer procurar os traficantes.

O estudo dividiu os resultados por faixas etárias. Um terço das crianças que têm entre 2 e 6 anos afirma se alimentar na rua. Já no grupo de 7 a 11 anos, 12% responderam que trabalham e 37% declaram sofrer algum tipo de violência, como agressão e insultos. Entre os jovens de 12 a 17 anos, um quarto já teve contato com bebidas alcoólicas, considerada por especialistas como porta de entrada para o consumo de drogas.

Os resultados fazem parte da pesquisa "A Criança no Centro: um retrato das infâncias na cidade de São Paulo", feita ao longo do ano por cinco ONGs que atuam na região com população em situação de vulnerabilidade social e divulgada nesta sexta-feira (08/12/2017). Foram ouvidas mais de 500 crianças e adolescentes de 2 e 17 anos que vivem nos bairros da Sé, República, Anhangabaú, Santa Cecília e Campos Elíseos, onde fica parte da Cracolândia.

Nessa região do centro de São Paulo, onde a venda e o consumo de drogas acontece livremente, foram ouvidas 22 crianças e adolescentes em situação de rua. Delas, 55% já tiveram contato com um ou mais tipos de entorpecentes. Durante o trabalho dos pesquisadores, a maior parte das crianças estava consumindo drogas quando foram abordadas: thinner (41% dos entrevistasdos), crack (18%) e cigarro (5%).

Quando perguntados como foi o primeiro contato com a droga, 42% disse que foi por vontade própria e 58% afirma que aceitou o que foi oferecido por terceiros.

Desses jovens, 41% declararam que se dividiam entre dormir na rua e em casa, enquanto 27% disseram que dormiam somente na rua.

PREFERÊNCIA PELA RUA

No grupo de 2 a 6 anos, a rua aparece como preferência de 51% das crianças, em especial os meninos, pois 60% deles declaram gostar da situação. Para os pesquisadores, isso representa uma situação de extrema violação de direitos.

Das crianças de 7 a 11, 19% declararam dormir com fome ou não souberam responder essa questão. No grupo de 12 a 17 anos, 8% afirmaram que dormem com fome.

Ainda entre os mais velhos, 79% alegaram que nunca se envolveram com roubo ou furto. Outros 13% responderam que já praticaram esse tipo de crime para "ajudar em casa" ou comprar "roupas, calçados ou eletrônicos".

“Culpabilizar os adolescentes ou simplesmente institucionalizá-los ou ceder a pressões midiáticas, não garantirá transformações de vidas, ou ainda, resposta qualificada a esta problemática social, deixando mais longe o rompimento do ciclo da pobreza e miséria”, observam os pesquisadores no relatório.

Procurada para comentar o estudo, a Prefeitura de São Paulo informou que desconhece o conteúdo da pesquisa, mas que "trabalha para melhorar as condições de vida de todas as crianças da cidade, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade".

A prefeitura destacou a criação de 18 mil vagas em creches neste ano e a promulgação do marco regulatório da primeira infância, que envolve as secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social.

A gestão municipal afirma manter serviços especializados de abordagem e atenção a crianças em situações de rua, além de um programa de prevenção e erradicação do trabalho infantil (PETI), que tem como pressuposto "a promoção, garantia e defesa dos direitos da criança e do adolescente em situação de exploração e trabalho infantil".

Fonte: O GLOBO - 15/12/2017

Promotor pede proibição de bebidas alcoólicas em festa de colégio evangélico

Consultor Jurídico

Diante da impossibilidade de coibir que adolescentes consumam bebidas alcoólicas em festas de formatura, a venda desses produtos deve ser proibida nesse tipo de evento. A recomendação é de um promotor de Jaraguá do Sul (SC) a um colégio evangélico da cidade.

O fato de a escola promover um trabalho amparado "por valores éticos, estéticos, morais e espirituais", como ela própria divulga em seu site, parece não ser suficiente para o promotor, que pede que a escola alerte os pais e responsáveis sobre o consumo de álcool por adolescentes, principalmente nos chamados "esquentas", quando jovens se reúnem para beber antes da festa de formatura.

E ameaça: aplicará as medidas proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente ao jovem que for encontrado embriagado ou sob efeito de entorpecentes e também aos seus pais. O promotor diz ainda que a responsabilidade civil, administrativa e criminal dessas festas não é das escolas, mas, sim, dos pais, que firmam os contratos de prestação de serviço com clubes e empresas de formatura.

A recomendação orienta ainda a escola a informar aos pais que os adolescentes também mentem. Segundo o promotor, há uma proliferação de eventos clandestinos mascarados de aniversário e confraternização, onde são servidas bebidas alcoólicas. Entre as estratégias dos jovens, segundo a recomendação, está fazer festa na casa de famílias que estão ausentes da cidade, como nos filmes adolescentes hollywoodianos.

O promotor determina ainda instauração de inquérito civil para implantar projeto de prevenção de consumo de drogas e álcool por adolescentes, pedindo que a recomendação à escola evangélica seja enviada a todas as escolas públicas e particulares que possuam turmas dos anos finais do ensino fundamental e médio.
Clique aqui para ler a recomendação.

Fonte: UNIAD - 08/12/2017

Marcas de cigarro dos EUA são obrigadas a admitir que causam mortes

Empresas gigantes da indústria do tabaco perderam uma batalha iniciada há quase duas décadas na Justiça americana e, desde este domingo (26/11/2017), passaram a ter de exibir anúncios na mídia admitindo ter encoberto mortes causadas pelo tabagismo e colocado aditivos nos cigarros para torná-los mais viciantes.

As empresas Altria, R.J. Reynolds, Lorillard e Philip Morris USA são citadas nos anúncios, que serão exibidos por um ano na TV e na imprensa escrita. A ordem judicial foi dada em 2006, mas desde então as marcas tentavam barrar a decisão por meio de recursos, que só agora se esgotaram.

"Mais pessoas morrem todos os anos por fumar do que por assassinato, AIDS, suicídio, drogas, acidentes de carro e álcool combinados", diz um dos vídeos exibidos na TV e na internet. "Fumar mata, em média, 1.200 americanos. Todos os dias", também dizem os anúncios.

"Fumar causa doenças cardíacas, enfisema, leucemia mielóide aguda e câncer de boca, esôfago, laringe, pulmão, estômago, rim, bexiga e pâncreas. Fumar também causa redução da fertilidade, baixo peso em recém-nascidos e câncer do colo do útero", continua.

Mensagens como essas terão que ser exibidas em anúncios de página inteira nos 50 jornais mais importantes dos Estados Unidos por cinco domingos durante um ano. Na televisão, serão ao menos 260 exibições por doze meses em redes nacionais, como a ABC, a CBS e a NBC, cinco dias por semana, no horário nobre da noite.

Vício

A campanha imposta pela Justiça também pretende alertar os americanos para os riscos da nicotina, que causa o vício em cigarro.

"As empresas de cigarros controlam o impacto e a entrega da nicotina de várias maneiras, incluindo a concepção de filtros e a seleção do papel do cigarro para maximizar a ingestão de nicotina, a adição de amônia para tornar o sabor do cigarro menos amargo e o controle da composição física e química da mistura de tabaco", diz o texto do anúncio. "Quando você fuma, a nicotina realmente muda o cérebro — é por isso que parar de fumar é tão difícil".

Fonte: Revistagalileu.globo.com - 01/12/2017

Pais autoritários protegem mais contra drogas do que tolerantes, diz estudo

Adriana Nogueira
Do UOL

Quando se trata de prevenir o abuso de drogas e álcool por adolescentes, pais que sabem combinar limites com diálogo são os mais bem-sucedidos. Essa é a conclusão de um estudo coordenado por Zila Sanchez, docente do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

A pesquisa –realizada com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras, com idade média de 12,5 anos– analisou quatro perfis de pais: autoritativo (que combina exigência com diálogo e afeto), autoritário (em que prevalece a exigência),indulgente (que tem baixo grau de exigência, mas alto de diálogo e afeto) e negligente (em que as duas características são baixas).

“Foi feito um ranking, que listava do perfil mais protetor ao menos. As extremidades corroboraram estudos internacionais. Pais autoritativos são os mais protetores e os negligentes, os menos. A surpresa foi que o segundo perfil mais protetor é o de pais autoritários. Lá fora, essa posição costuma ser ocupada pelos indulgentes”, diz.

Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico científico “Drug and Alcohol Dependence”, em agosto. Os estudantes ouvidos eram do 7º e 8º anos de 62 escolas públicas localizadas nas cidades de Tubarão (SC), Florianópolis (SC), São Paulo (SP), São Bernardo do Campo (SP), Fortaleza (CE) e Brasília (DF). Eles responderam questionários de forma anônima.

Limite também é afeto

“A dificuldade de muitos pais de colocarem regras vem da preocupação de deixarem de serem amados pelos filhos. Mas o papel deles é educar. O amor vai vir como consequência de todo o trabalho de criação”, diz o psicólogo Yuri Busin, diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio), em São Paulo.

A psicóloga Mariana Verpa Sanches, do Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas),ligado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo), afirma que o que muitos pais parecem não saber é que colocar regras e cobrar o cumprimento delas também é uma forma de afeto.

“No grupo, atendemos dependentes a partir de 18 anos, e já ouvi de muitos que a liberdade que tinham parecia ser falta de amor”, diz a psicóloga.

Buscar informação

Segundo Mariana, é importante que pais que sintam dificuldade de colocar limites busquem ajuda. “Vale procurar a escola do filho ou mesmo um psicólogo. Às vezes, os adultos tiveram uma história difícil com os próprios pais e decidem fazer tudo diferente, caindo em extremos”, fala Mariana.

A especialista também aconselha os adultos a se informarem antes de falar com os filhos.

“Há pais que se apavoram ao achar um baseado na mochila do jovem. Chegam para conversar e dizem que a maconha é a porta de entrada para drogas mais pesadas, o que não é verdade. Estudos já comprovaram que o álcool e o tabaco fazem esse papel. Muitas vezes, o adolescente tem mais informação do que os pais, o que faz com que não leve em consideração o que esses estão falando.”

Famílias Fortes

Desde 2013, o Ministério da Saúde vem implementando em diversas cidades o Famílias Fortes, um programa de fortalecimento de vínculos familiares e prevenção ao abuso de drogas, inspirado em uma iniciativa semelhante, dos Estados Unidos.

A efetividade do programa --voltado para pais e adolescentes de dez a 14 anos-- está sendo avaliada por um estudo coordenado por Sheila Giardini Murta, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília. A pesquisa será concluída em 2018.

“Mas os dados preliminares mostram que os pais têm conseguido desenvolver habilidades para ensinar responsabilidades, estabelecer regras, regular as emoções, expressar afeto e se comunicar de modo mais positivo. Já os adolescentes têm conseguido se proteger mais de influências negativas dos seus pares, recusando-se a aderir a situações de risco, como faltar à aula”, diz Sheila.

A colocação de limites, segundo os especialistas ouvidos nesta reportagem, deve começar já na infância, mas corrigir caminhos é possível mesmo na adolescência. “Mas uma coisa é construir uma casa do zero, outra é reformar uma que existe. Haverá dificuldades, claro”, finaliza Mariana Sanches.

Fonte: UOL - 24/11/2017

Consumo regular de álcool mata células-tronco cerebrais que produzem novos neurônios

POR CESAR BAIMA

RIO – Até pouco tempo atrás, os cientistas achavam que o número de células nervosas do cérebro adulto era definido ainda cedo na vida, sem o desenvolvimento de novos neurônios a partir de uma determinada idade. Recentemente, porém, eles descobriram que um pequeno grupo de células-tronco continua a produzir novos neurônios, ainda que em quantidades e em regiões cerebrais limitadas, ao longo da vida, num processo que foi batizado de “neurogênese”.

Esta descoberta de uma certa capacidade de “regeneração” do cérebro mudou paradigmas na abordagem das pesquisas para entender e buscar tratamentos de problemas que provocam a perda de neurônios, sejam doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer, ou fatores externos, como o alcoolismo. E foi diante desta possibilidade que pesquisadores da Divisão Médica da Universidade do Texas em Galveston, EUA, decidiram investigar os efeitos do consumo regular de álcool neste tipo de células.

- A descoberta de que o cérebro adulto produz células-tronco que criam novas células nervosas nos deu uma nova maneira de abordar o problema das mudanças no cérebro relacionadas ao álcool – diz Ping Wu, professor do Departamento de Neurociência e Biologia Celular da instituição. - Mas antes de desenvolvermos estas novas abordagens precisamos entender como o álcool impacta as células-tronco cerebrais em diferentes estágios de seu desenvolvimento, em diferentes regiões cerebrais e nos cérebros tanto de machos quanto de fêmeas.

Assim, em experimentos com camundongos usando técnicas avançadas que os permitem “marcar” estas células-tronco nos cérebros dos animais, os cientistas verificaram que a ingestão regular de álcool no longo prazo mata a maior parte delas, reduzindo a produção e desenvolvimento de novos neurônios. Além disso, eles observaram que as fêmeas dos camundongos apresentavam déficits maiores que os machos, exibindo sinais mais severos de intoxicação e um reservatório menor de células-tronco cerebrais na zona subventricular, uma das principais regiões de neurogênese do cérebro.

Os cientistas esperam que mais estudos baseados em seu modelo animal dos efeitos do alcoolismo no cérebro tragam uma melhor compreensão do como o álcool interage com as células-tronco cerebrais, abrindo caminho para o eventual desenvolvimento de novas estratégias para tratar e curar o alcoolismo e suas consequências físicas no órgão.

Fonte: O GLOBO - 17/11/2017

Consumo de álcool aumenta propensão a vício em cocaína, diz estudo

LOS ANGELES - O consumo de álcool leva a um comportamento mais propenso ao vício em cocaína, segundo os resultados de um estudo realizado com ratos que foi publicado nesta quarta-feira, 01/11/2017, pela revista Science Advances, da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Depois de consumir álcool durante 10 dias, os ratos se mostraram mais viciados em cocaína, apesar de receberem choques elétricos quando consumiam a droga.

"A elaboração do estudo foi inspirada em observações em humanos", explicou em entrevista à agência de notícias EFE o diretor da pesquisa, Edmund Griffin Jr.

Segundo Griffin, outros estudos, como por exemplo alguns realizados pela epidemiologista da Universidade de Columbia e coautora do relatório, Denise Kandell, mostraram que nos humanos há uma sequência de comportamentos em casos de abuso de drogas.

"As pessoas que consomem cocaína normalmente têm um padrão histórico de dependência ao álcool ou à nicotina", destacou Griffin.

Uma das questões que o estudo queria resolver era se as pessoas que consomem álcool e maconha têm o costume de se reunir por razões meramente sociais ou também biológicas.

Para o experimento foram utilizados dois grupos de ratos: ao longo de 10 dias e durante duas horas ao dia, um grupo foi submetido ao consumo de álcool e outro ao de água, e depois ambos foram expostos ao consumo de cocaína.

Segundo Griffin, os ratos que previamente consumiram álcool desenvolveram uma maior dependência à cocaína e mantiveram o consumo apesar de consequências negativas, como um choque elétrico a cada vez que consumiam a droga.

"O consumo de álcool aumenta as respostas de consumo de cocaína, embora este tenha circunstâncias negativas como o choque elétrico", disse o cientista, que realçou que o estudo mostra a presença de um fator biológico e não só de conduta social. "Esta pesquisa abre o caminho para oferecer novas opções terapêuticas para o tratamento da dependência."

A análise mostrou que "tanto o álcool quanto a nicotina atuam através de mecanismos moleculares similares para aumentar a vulnerabilidade à cocaína".

"O que me surpreendeu é que os ratos se comportaram exatamente como esperávamos de acordo com um estudo prévio de Denise sobre pessoas que usam nicotina e álcool antes de usar cocaína", afirmou Eric Kandel, neurocientista da Universidade de Columbia e outro dos autores da pesquisa.

As conclusões que mostram que há uma base biológica e não somente social no consumo de nicotina e álcool como precursores ao consumo de cocaína abrem grandes possibilidades para o desenvolvimento dos programas de prevenção.

"Quando os jovens se envolvem com drogas é importante conhecer qual mecanismo é responsável pelo fato de o uso de uma droga aumentar o risco de usar outras drogas", apontou a especialista em reabilitação Denise Kandell.

Da mesma forma, a cientista destacou a importância do estudo para os tratamentos de reabilitação de toxicomania.

"Para tratamentos de reabilitação, é muito importante saber que o uso de álcool e nicotina é um precursor para o consumo de cocaína."

Não obstante, Griffin destacou que os ratos são mais suscetíveis à dependência do que os humanos.

"Muitas pessoas que usam drogas não são tão suscetíveis a se tornarem dependentes."

Segundo os pesquisadores, o próximo passo é "entender melhor os mecanismos pelos quais o álcool dirige o processo de dependência" para outras drogas.

O estudo também abre caminho para determinar se o consumo de maconha é um fator que pode levar ao consumo de cocaína, "o que teria implicações muito importantes para os tratamentos na saúde pública", concluiu Griffin. /EFE

Fonte: UNIAD - 10/11/2017

Por que o Brasil escapou ileso da droga que virou epidemia nos EUA e na Europa

Letícia Mori
Da BBC Brasil em São Paulo

Magros e com ar abatido, eles perambulam pelas ruas, com isqueiro na mão, comprando drogas para aplacar sua crise de abstinência. O cenário pode lembrar o de usuários de crack, que se espalham pelas capitais brasileiras, mas nesse caso retratam uma outra realidade: a do uso de heroína e opioides nos Estados Unidos e na Europa.

Os Estados Unidos acabaram de declarar uma epidemia de opioides – drogas derivadas do ópio, como a heroína, a morfina e a metadona – como uma emergência de saúde pública. "Nunca vimos algo como o que tem acontecido nos últimos quatro anos", disse o presidente Donald Trump na quinta.
Na Inglaterra, no país de Gales e na Escócia, o número de mortes por overdose de heroína dobrou nos últimos cinco anos - e é hoje o maior por ano desde que o governo começou a medir.

Nos EUA, um levantamento do governo federal divulgado em setembro apontou que o número de mortes causadas por fentanil, um anestésico e analgésico opioide de acesso restrito, aumentou 540% em três anos - foi de 3 mil, em 2014, para 20 mil, em 2017.
O relatório mostra que a epidemia atinge diferentes partes do país. A presença constante do vício em opiáceos sobrecarrega governos estaduais, que precisam deslocar cada vez mais recursos para remediar o problema.

A explosão no uso dessas substâncias, no entanto, não chegou ao Brasil. Aqui o problema é outro.
O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas disponível, feito em 2012 pela Unifesp, apontava que 1,8 milhão de pessoas já haviam experimentado crack no país, enquanto a cocaína havia sido usada por 5,6 milhões. Já a Pesquisa Nacional sobre o Crack feita pela Fiocruz em 2013 revelou que havia cerca de 370 mil usuários regulares de crack nas capitais.

Nenhum dos levantamentos aponta presença relevante de heroína. O estudo feito pela Unifesp nem cita a droga. E só 0,84 dos usuários de crack já experimentaram heroína e outros opioides, de acordo com a pesquisa da Fiocruz.
"A heroína tem prevalência muito baixa independentemente do estrato social - em diferentes classes sociais, gêneros, idade, formação", explica o pesquisador Francisco Inácio Bastos, principal especialista em drogas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do estudo sobre o crack.
Como conseguimos escapar ilesos desse problema?

Veteranos de guerra

A heroína é derivada do ópio - droga originária da Ásia que já era conhecida na Europa há milênios quando um tratado proibiu sua comercialização, em 1912.
Produzida através da mesma planta, a papoula, a heroína foi sintetizada pela primeira vez pelo químico britânico Charles Romley Alder Wright, no fim do século 19.
Foi distribuída como remédio para dor pela empresa farmacêutica Bayer durante mais de uma década nos Estados Unidos e na Europa, até relatos de que a substância era viciante levaram também à sua proibição, nos anos 1910.
A partir daí, ela continuou a ser produzida ilegalmente e se tornou um problema na Europa.

Já nos EUA, o grande mercado para a heroína se formou nos anos 1970, segundo Guaracy Mingardi, especialista do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ex-subsecretário nacional de segurança pública.
"Os soldados que lutaram na Guerra do Vietnã (1955-1975) começaram a voltar viciados. Eles também tinham conhecido e criado relacionamentos com os traficantes, o que ajudou a disseminar a droga", afirma.
No Brasil, nunca se criou essa demanda, segundo Mingardi. Ele explica que o tráfico muitas vezes se utiliza das rotas comerciais existentes – e o menor número de rotas entre Brasil e Ásia nesse período ajudou a inibir a disseminação da droga.

Muito longe da Ásia e das rotas de distribuição, o Brasil acaba recebendo heroína muito raramente – e a preços muito mais altos.A estimativa dos especialistas é que a droga esteja custando U$ 150 (R$ 450) por 1g. Como comparação, uma pedra de crack custa em torno de R$ 10 na cracolândia paulistana.

"A questão do preço e da distribuição é muito importante. No caso da cocaína, por exemplo, estamos ao lado dos maiores produtores do mundo. Mesmo assim, a maior parte da cocaína consumida aqui, por exemplo, vem da Bolívia, porque a colombiana é mais cara e costuma ir para os EUA e a Europa", afirma ele.
O crime organizado brasileiro também não parece ter estratégias ou escala de distribuição de opioides.
"Pelos poucos registros de uso de heroína aqui é possível perceber que a droga não vem através do tráfico comum, dos mesmos distribuidores que vendem maconha, cocaína e crack", afirma Mingardi.
O médico Francisco Inácio Bastos, da Fiocruz, concorda com essa avaliação: "Não existe distribuição sistemática, é um ou outro estrangeiro que traz um pouco para cá".

Efeito colateral

Outro fator a ser levado em conta é que os brasileiros não têm um alto consumo de remédios anestésicos como os americanos, explica Bastos.
"Eles têm costume maior de consumir anestésicos e analgésicos por uma série de motivos: o país é mais rico, a população tem uma sobrevida maior em relação à doenças crônicas e reumáticas, o acesso é maior", diz o pesquisador.
Segundo ele, o hábito de consumir opioides legais acaba levando muitas pessoas ao vício. "Muitos remédios que são receitados acabam gerando um vício. As pessoas ficam dependentes de (substâncias opioides como) fentanil, metadona e oxicodona. Depois que a quantidade receitada acaba, na dificuldade de conseguir as drogas – vendidas só com prescrição médica – a pessoa acaba comprando heroína na rua, porque ela tem efeitos parecidos", diz Bastos.
Em 2015, um terço dos americanos recebeu prescrição para usar esse tipo de medicamento, segundo dados do governo federal dos EUA.

Outra explicação possível para a menor incidência de heroína no Brasil é que os maleficíos da droga foram muito divulgados em campanhas contra o seu uso – principalmente a partir dos anos 1980, quando houve um pico de consumo no mundo.
A validade dessa tese, no entanto, é questionável se considerada a quantidade de publicidade negativa feita sobre o crack e o fato de que o uso dessa droga apenas se intensificou desde os anos 1990.

A heroína é uma droga depressora. Gera uma sensação de euforia intensa seguida por um período de sedação, e é rapidamente viciante. Usada continuamente, causa insônia, disfunção sexual, enfraquecimento do sistema imunológico e pode desencadear doenças psicólogicas e lesões cerebrais.
Conforme o corpo se acostuma com a substância, necessita de doses cada vez maiores para obter a mesma sensação - por isso a droga tem um alto índice de overdose.
"As classes baixas consomem o crack, que é mais barato. Nas classes médias, que teriam poder aquisitivo para consumir o produto, a reputação da droga pode ter um papel em suprimir o uso", diz Bastos.
"É um círculo virtuoso - não existe demanda, então os traficantes não trazem. E como não existe distribuição, as pessoas não viciam", diz. "Um problema a menos para a gente se preocupar."

Fonte: BBC Brasil - 01/11/2017

78% das mortes têm relação com o tráfico de drogas, diz secretária de segurança do RN

Por G1 RN

Diante da marca histórica de duas mil mortes em menos de um ano,a secretária de Segurança Pública do Rio Grande do Norte atribui a maior parte delas ao tráfico de drogas e às disputas entre facções criminosas, que dependem desse mercado ilegal. Do total de assassinatos, cerca de 78% estão relacionados com isso, afirma Sheila Freitas.

A secretária aponta o enfrentamento ao tráfico de drogas como principal passo para que o estado possa diminuir a violência nos próximos anos, mas considera que precisa de recursos e policiais suficientes para isso.
"Quando a gente faz um trabalho direto contra o tráfico de drogas, a gente reduz as mortes. Foi o que aconteceu em Parnamirim", diz a titular da pasta. Sheila afirma que o município da Grande Natal teve a criminalidade reduzida após uma série de operações policiais que desarticularam grandes quadrilhas. O problema é que o negócio migra.

Neste ano, Ceará-Mirim, também na região metropolitana da Grande Natal, despontou com uma alta de homicídios, atribuídos pelas autoridades policiais ao tráfico. Além disso, a começar pela morte de 26 apenados na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, o ano contou com muitas chacinas e casos de múltiplas mortes, lembrou Sheila, ligados também a essas disputas.

A secretária afirma que a polícia vem trabalhando sobre as manchas criminais (regiões com mais estatísticas de criminalidade), porém conta com poucos policiais. "O Estado tem um plano, mas não tem como torná-lo efetivo sem pessoal", comenta.

Sobre essa demanda, ela afirma que o estado só poderá apresentar melhor resposta no segundo semestre do próximo ano. Até o fim de outubro, ela afirma, deverá ser lançado o edital com mil vagas para policiais militares. Os primeiros 500 devem ser convocados logo em seguida para o curso de formação e chegarem às ruas no segundo semestre do próximo ano.

Quando o assunto são os recursos financeiros, a pasta aguarda a liberação de um empréstimo do governo do estado com a Caixa Econômica Federal no valor de R$ 698 milhões. Desse total, R$ 50 milhões serão destinados para a Segurança, na recuperação de prédios e compras de materiais para as polícias e para o Corpo de Bombeiros. Porém ainda não há expectativa de quando esse dinheiro será liberado.

Perfil da vítima

De acordo com a Secretaria de Segurança do RN, o perfil da vítima de assassinato no RN é homem jovem, com idade entre 19 e 24 anos, solteiro, pobre, vítima de arma de fogo em 90% dos casos. "Estamos preocupados com o crescimento das mortes de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos", diz Sheila.

Fonte: UNIAD - 27/10/2017
Qual profissional deve cuidar da saúde mental do meu filho?

Por Luis Augusto Rohde

Colaboração de: Maria Lucrécia Zavaschi, professora aposentada de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre; e de Guilherme Polanczyk, professor livre docente de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade de São Paulo (USP).

Ô perguntinha difícil! Nas conferências que faço pelo Brasil afora para pais e professores sobre transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e outros problemas de saúde mental de crianças e adolescentes, essa questão é uma das mais frequentes. O pediatra pode avaliar e tratar essas condições? Procuro um neuropediatra, psicólogo ou psiquiatra da infância e adolescência?

Indicação em primeiro lugar?

Dados de pesquisa nos Estados Unidos indicam que a escolha de um médico se dá ainda pelo conhecido método de boca a boca, mesmo nos dias atuais onde, para quase tudo, as pessoas fazem uma vasta pesquisa na web. Ainda que a escolha de um profissional possa estar restrita àqueles que são parte do convênio do paciente, a indicação de familiares ou amigos, em primeiro lugar, e a indicação de outro médico, em segundo lugar, deixam a escolha por dados do profissional disponíveis na web a léguas de distância.

Temos que convir que esse não parece ser um método muito criterioso de escolha; o que é bom para o filho de um amigo pode não ser o melhor para o nosso! A opinião de um médico sobre o outro nem sempre está baseada no conhecimento das habilidades clínicas do colega.

Soma-se a isso um outro aspecto. Essa é uma área onde há espaço não auditado para qualquer intervenção e muitos profissionais julgam possuir a verdade, sem apresentar os prós e contras das suas orientações, numa postura muito longe de científica.

Cada profissional irá abordar o problema de uma maneira

Costumo usar um exemplo com meus alunos de pós-graduação. Vamos pensar no caso de um menino de 7 anos com enurese noturna primária (i.e., faz xixi na cama desde sempre), morando com ambos os pais que têm um casamento instável e com uma irmã de 4 anos. Se os pais preocupados com o problema levarem a criança para um pediatra, neuropediatra ou psiquiatra estritamente biologicamente orientado, muito provavelmente irão sair da consulta com uma receita de uma entre três medicações (imipramina, DDAVP, oxibutinina).

A mesma família, nas mãos de um psicólogo que trabalha estritamente no referencial cognitivo-comportamental, ingressará num atendimento para condicionamento comportamental com um alarme urinário (dispositivo que é acionado quando a primeira umidade de urina aciona o sensor que emite um som acordando a criança), ou iniciará calendários com nuvenzinhas de chuva ou soizinhos associados a reforço positivo, na medida em que a criança consiga aumentar o controle.

Se a mesma família for ao consultório de um psiquiatra ou psicólogo que trabalha num referencial sistêmico de terapia familiar, ouvirão que a criança é o paciente identificado e que a enurese é a expressão da instabilidade da relação dos pais e, portanto, o tratamento deve ser uma intervenção com toda a família. Por fim, nas mãos de um terapeuta de orientação estrita analítica, terão a indicação de uma psicoterapia individual com o entendimento que a enurese está associada a questões edípicas mal resolvidas com o nascimento da irmã e que a criança está expressando dessa forma a sua raiva. Complicado, não? Como decidir em que porta bater?

Afinal, como decidir?

Como esta questão é complexa, mexe em questões de classe e não é estritamente baseada em evidência científica, resolvi pedir ajuda para os “universitários”. No meu caso, duas pessoas que eu respeito muito na área de saúde mental de crianças e adolescentes. A eterna professora de psiquiatria da Infância e Adolescência da UFRGS, Maria Lucrécia Zavaschi, e o professor de psiquiatria da Infância e Adolescência da USP, Guilherme Polanczyk. Eis as nossas sugestões.

1º passo: Informe-se sobre o que lhe parece ser o problema que seu filho(a) tem. Uma boa alternativa pode ser, sim, a web! O importante aqui é separar o joio do trigo. Os sites de associações de portadores ou familiares da condição são valiosos. Mesmo que inglês não seja a sua praia, valha-se de uma ferramenta de tradução e pesquisa em sites ingleses, americanos, canadenses e australianos. Sites oficiais do National Institute of Mental Health nos Estados Unidos, do National Institute for Health and Care Excellence na Inglaterra são excelentes alternativas, assim como sites das associações de pediatria, psicologia, psiquiatria da infância e adolescência, e neuropediatria desses países. Para crianças de até três anos de idade, o site “Zero to Three” é um ótimo recurso.

2º passo: Volte a sua realidade (região ou convênio) e descubra, dentro de suas possibilidades, quem é a pessoa com maior formação e experiência em problemas de comportamento e emocionais de crianças que você pode ter acesso. Se você já conseguiu delimitar bem o problema do seu filho(a), pode ser alguém com a maior experiência nesses problemas. Mas, atenção, esse profissional pode não ser o que irá cuidar do seu filho(a)! Ele será aquele que irá indicar o caminho a ser seguido e com quem você irá discutir tudo que aprendeu na etapa acima.

Algumas dicas para incrementar o velho método do boca a boca, já que não teremos como escapar dele nesse momento. Procure se certificar que ele(a) conhece profundamente desenvolvimento normal de crianças para saber diferenciar o que é patológico do que não é, e se transita por diversos referenciais teóricos (biológico, cognitivo-comportamental, psicanalítico, familiar), mesmo que trabalhe mais focado em um. Afinal, ele irá definir se seu filho(a) precisa ou não de tratamento e, em caso positivo, de que modalidade (medicação, intervenção familiar, uma entre as diversas modalidades de psicoterapias individuais ou combinação de intervenções).

Mas por que gastar tempo e dinheiro com um profissional que talvez seja intermediário? Pela longa formação e experiência clínica, esses profissionais têm normalmente uma noção mais ampla e profunda do campo de atuação e dependem menos das indicações de colegas. Finalmente, com frequência, preenchem um requisito importante lembrado por um renomado psicanalista: precisam menos do paciente do que o paciente deles!

Em resumo, reúnem conhecimento de causa e liberdade para orientar aqueles que os procuram. Isso é fundamental numa área onde os parâmetros são muito subjetivos. Mas então porque não ficar com esse profissional? Normalmente, eles são mais caros, podem não ter a disponibilidade que você e seu filho(a) precisam e, mais importante, podem não ter o treinamento na técnica mais indicada para o seu filho.

Não saia da consulta sem entender muito bem o problema do seu filho, quais as evidências científicas dos diferentes tipos de tratamento e com pelo menos duas indicações de profissionais na modalidade definida. Vale a pergunta final: se fosse seu filho(a), nas condições que discutimos, qual modalidade de tratamento você indicaria e quais são as duas melhores opções de profissionais?

3º passo: Converse com os dois profissionais indicados. Um estudo recente sobre o melhor tratamento para depressão em adolescentes mostrou que três técnicas psicoterápicas completamente diferentes tiveram resultados muito similares após 1 ano de intervenção. Isso parece sugerir que elementos inespecíficos como empatia e real engajamento no cuidado do paciente possam ser até mais importantes do que elementos específicos que são caraterísticos de cada técnica. Nessa etapa, a sua percepção vai ajudar na escolha final.

Muito complicado? Demorado? Pois é, o risco da decisão rápida ou só embalada pela opinião dos outros é seu filho tomar uma medicação que não precisa ou ficar anos em terapia com um profissional que precisa mais dele do que ele do terapeuta!

Luis Augusto Rohde é professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor da pós-graduação em Psiquiatria na Universidade de São Paulo

Fonte: VEJA - 22/10/2017

Proibição da publicidade de bebidas alcoólicas pode prevenir uso de drogas, dizem especialistas

Agência Câmara de Notícias
Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Pedido para realização do debate foi da deputada Flávia Morais (PDT-GO).

Acesso de menores a bebidas alcoólicas e publicidade de cervejas foram citados como fragilidades da política de prevenção ao uso de drogas.

Especialistas defenderam a proibição da publicidade de bebidas alcóolicas, em audiência pública da Comissão de Legislação Participativa da Câmara para debater políticas para o combate e prevenção ao uso de drogas, nesta terça-feira (03/10/2017).

Segundo o Ministério da Saúde, 12% das mortes no Brasil estão relacionadas ao abuso de tabaco ou de bebidas alcoólicas. Assessora técnica da Coordenação Geral de Saúde Mental Álcool e outras Drogas, do Ministério da Saúde, Cinthia de Araújo ressaltou que é preciso tornar a legislação mais efetiva. Ela apontou, por exemplo, fragilidades relacionadas ao acesso de bebidas alcoólicas por menores de idade. Um dos focos dos trabalhos de prevenção, segundo a assessora, é inibir o uso precoce das drogas.

"Infelizmente, a proibição da publicidade não engloba as cervejas, que geralmente são as bebidas alcoólicas de iniciação dos jovens. Assim, os jovens continuam muito expostos a esse estímulo ao consumo inicial de álcool”, ressaltou. Cinthia informou ainda que no ranking de práticas para prevenção ao uso de drogas, a legislação está em primeiro lugar e as campanhas em último.

Secretário-Executivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Cristiano Maronna, considera importante uma legislação que restrinja e previna o uso abusivo de bebidas alcoólicas.

"Eu espero que o Congresso nacional tenha coragem de enfrentar esse tema e tome a única atitude responsável em relação a isso, que é banir definitivamente a propaganda de bebidas alcoólicas dos meios de comunicação. Não faz nenhum sentindo, estimular o consumo de uma droga tão perigosa e tão nociva. Quem estuda política de drogas sabe que mercados criminais não regulados, como os das drogas ilícitas causam tanto dano quanto os mercados legais desregulados com promoção comercial, que é exatamente o caso das bebidas alcoólicas", ressaltou.

Diretor de Articulação e Projetos da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, do Ministério da Justiça, Cloves Benevides lembrou que a lei brasileira de restrição ao cigarro colocou o Brasil como país que mais reduziu o número de fumantes no mundo.

“Foi uma Lei que definiu espaços de proibição, restrições à publicidade, restrições ao patrocínio de eventos esportivos e culturais. Isso foi um ganho da sociedade brasileira. Com o uso crescente do álcool, é também o parlamento brasileiro que vai construir as respostas, legislativas e normativas", defendeu.

Primeiro vice-presidente da comissão, o deputado Chico Lopes (PCdoB-CE), informou que o colegiado poderá apresentar um projeto de lei com a medida. "Mas o assunto é complexo porque as bebidas são aceitas socialmente", avaliou. O deputado também destacou que é preciso uma política que não seja baseada na repressão, mas na ação integrada de profissionais da saúde com a participação da família.

Reportagem - Leilane Gama

Edição - Geórgia Moraes

Fonte: UNIAD - 11/10/2017

1 em cada 5 internos da Fundação Casa é reincidente; nº é recorde

Especial

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

A adolescência de Bruno (nome fictício), de 14 anos, começou atrás das grades. Ele não tem ídolos, não assiste à TV e, das poucas vezes que foi à escola, na periferia de Atibaia, a 64 quilômetros da capital paulista, havia professor de menos e drogas demais, pelo que relata. Em fevereiro de 2016, foi internado na Fundação Casa pela primeira vez, por roubo com arma de brinquedo. Ficou 45 dias internado e saiu. Na rua, viu os colegas em ascensão no tráfico e foi apreendido novamente. Na segunda e na terceira vez, foi pego por tráfico de drogas, infração cometida por 40% dos internos.

“Achava que teria uma vida boa. Mas até agora só o que eu consegui foi chegar a lugar nenhum”, conta o jovem, que neste ano cumpre a terceira internação. Os pais de Bruno também têm envolvimento com o tráfico e já foram presos.

Casos semelhantes têm preocupado as autoridades. A proporção de reinternações no sistema socioeducativo paulista bateu recorde este ano e já atingiu o maior patamar desde 2007, primeiro ano que funcionou a Fundação Casa. A taxa se aproxima, ano a ano, ao que era o índice da antiga Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem).

Para especialistas, falhas no diálogo entre órgãos responsáveis por políticas socioeducativas e no acompanhamento dos jovens liberados explicam o quadro. A atribuição não é só do governo estadual. Desde 2010, cabe aos municípios coordenar as medidas socioeducativas sem privação de liberdade, como advertência e prestação de serviços comunitários. A crise econômica no País, que reduz as oportunidades de emprego aos jovens mais pobres, também contribui.

Em 2017, segundo levantamento obtido com exclusividade pelo Estado, 21,93% dos internos já haviam passado pela Fundação Casa outra vez. É praticamente o dobro da taxa de 2010, quando 12,80% reincidiram - mínimo registrado desde o início da Fundação Casa. Em 2006, último ano da Febem, o índice de jovens que voltaram a cometer infrações foi de 29%. Já o tempo médio de internações tem caído. Em 2013, foram 261 dias, ante 244 neste ano.

A Fundação Casa foi criada justamente para ampliar o atendimento socioeducativo e evitar o encarceramento. Assim, a ideia era de oferecer chance real de reinserção, impedindo que os jovens, quando adultos, migrem para o sistema prisional. A redução da maioridade penal teve discussão retomada no Senado.

“A reinternação se deve à ineficácia das medidas socioeducativas. Não recuperam e não reintegram de modo saudável”, critica Tiago de Toledo, promotor da Infância e Juventude do Ministério Público Estadual. “Em seis ou sete meses é possível recuperar um adolescente?”

Os adolescentes, na maioria pobres, enfrentam falta de opções efetivas - de estudos e de emprego - na vida após a internação. “Do jeito que está, muitos preferem até continuar na unidade, porque ao menos lá têm comida, podem praticar esporte e ter um lugar decente para dormir”, diz Ricardo Cabezón, presidente da Comissão de Direitos Infantojuvenis da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Muitas vezes o adolescente entra na fundação e está devendo ao traficante. Quando volta para a favela, tem de acertar a dívida ou vai morrer.”

Vício. A facilidade de conseguir dinheiro com delitos e a ausência da família são citadas pelos internos como motivos para repetirem infrações. Felipe (nome também fictício), de 18 anos, outro interno em Atibaia, se viciou em maconha e lança-perfume após perder o pai, aos 13 anos. A mãe, empregada doméstica, ficava o dia inteiro fora de casa. E o irmão mais velho já era viciado em drogas. “Eu usava para não ficar solitário, para poder enturmar. E o uso me fez vender também. Quando vi que podia ganhar R$ 600 em uma noite, subiu à cabeça”. Na escola, perdeu o foco. “Quando saí, já estava viciado. Só via droga na mente”, diz o rapaz, que sonha em ser músico.

“A maioria dos que recebemos estão evadidos da escola. Alguns não sabem nem ler e escrever. Para recuperá-los, é preciso recuperar primeiro esse vínculo, com a escola e a família”, afirma a diretora da unidade de Atibaia, Marili Angelo.

Total de jovens acusados por homicídio diminui 93%

O número de adolescentes acusados de homicídio internados no Estado caiu de 476, em 2006, quando ainda havia a Febem, para 32, neste ano, já na Fundação Casa. A redução é de 93%. Considerando que o número de internos cresceu no período, a proporção caiu de 8,02% do total de atos infracionais cometidos em 2006 para 0,35% neste ano.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou, no dia 27, a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos. O projeto só poderá voltar à pauta no fim de outubro. A mudança seria para crimes como latrocínio, extorsão, estupro, favorecimento à prostituição e exploração sexual de crianças, adolescentes e vulneráveis e ainda homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e reincidência em roubo qualificado.

Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) já se declarou defensor do aumento do tempo máximo de internação no sistema socioeducativo, de três para oito anos no caso de infrações graves.

Perfil. Em São Paulo, atos infracionais considerados graves, exceto roubo qualificado, segundo dados da Fundação Casa, atingem 2% do total de internos. Tráfico e roubo são os delitos mais comuns. A quantidade de jovens que respondem por roubo qualificado (com uso de arma de fogo, por exemplo) atingiu 41,65% neste ano. E, por tráfico de drogas, são 41,53%.

Outro levantamento foi concluído pelo Ministério Público paulista em setembro e considera atos infracionais entre agosto de 2014 e agosto deste ano na capital. O estudo revela maior incidência entre jovens com 16 e 17 anos, em comparação com os mais novos. Dentre 7,6 mil casos de tráfico na cidade, 5,3 mil (70,3%) foram cometidos por jovens na faixa etária mais velha ante 2,2 mil (29,7%) entre menores de 16 anos.

“O número de crimes graves, como o roubo qualificado, tem crescido muito”, diz Tiago Toledo, promotor da área da Infância. O furto qualificado aparece com 862 casos, sendo 62,5% cometidos por jovens de 16 anos ou mais.

Senado quer preso no semiaberto em caso de superlotação

O plenário do Senado aprovou um projeto de lei que promove uma reforma ampla na Lei de Execução Penal, proposta por uma comissão de juristas formada em 2012. As mudanças vão desde o direito à progressão antecipada de regime para presos em cadeias superlotadas ao estabelecimento de parâmetros quantitativos para definir se drogas apreendidas eram para consumo pessoal ou não. O texto foi enviado para apreciação da Câmara dos Deputados.

Os objetivos são reduzir a superlotação, o excesso de presos provisórios no sistema penitenciário e facilitar a ressocialização de internos, de acordo com os parlamentares.

O Projeto de Lei do Senado 513/2013 prevê, por exemplo, que os presos passem a ser remunerados pelo trabalho no cárcere com base no salário mínimo (e não mais em três quartos do valor) e adota oficialmente as audiências de custódia, reguladas hoje por resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O projeto também sugere que sejam criados incentivos fiscais para empresas que contratarem presos e egressos de presídios.

COLABOROU FELIPE FRAZÃO

Fonte: UNIAD - 08/10/2017

Álcool motiva dois terços dos crimes no trânsito em SC

Diário Catarinense
Por Roelton Maciel

Motoristas embriagados são alvos de praticamente sete em cada 10 denúncias do Ministério Público por crimes de trânsito cometidos em Santa Catarina. Só entre os últimos meses de janeiro a agosto, o MP denunciou 3.599 motoristas por embriaguez ao volante.

Isto significa que o álcool está por trás de mais de dois terços dos 5,3 mil crimes de trânsito denunciados pelo MP no período. Uma denúncia do Ministério Público garante que, além de ser flagrado pela polícia, o motorista também seja processado criminalmente na Justiça. No ano passado, o Ministério Público denunciou mais de 6 mil condutores catarinenses por embriaguez. O número varia entre 6 e 7 mil denúncias anuais desde 2013, ano seguinte ao endurecimento das regras da popular Lei Seca. Dados das polícias rodoviárias mostram a ponta do problema: quase 3 mil motoristas já foram autuados por dirigirem embriagados nas estradas estaduais e federais catarinenses desde janeiro. O número de detidos já passa de 600.

Acesse: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2017/09/alcool-motiva-dois-tercos-dos-crimes-no-transito-em-sc-9913087.html

Fonte: UNIAD - 28/09/2017

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos

Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil*

O suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil. Os dados são do primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, divulgado em 21/09/2017, pelo Ministério da Saúde, que mostram ainda que, em 2015, 65,6% dos óbitos nessa faixa etária foram por causas externas: violências e acidentes. A divulgação faz parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.

O oficial de justiça aposentado Ivo Oliveira Farias, perdeu a filha Ariele para o suicídio em 2014, quando ela tinha 18 anos de idade. Ele superou o tabu e a vergonha e hoje fala abertamente sobre o suicídio da filha e a importância da prevenção. “As pessoas não se matam porque querem morrer, mas para acabar com a dor, não para matar a vida. Para eles, a única alternativa de parar de sofrer é morrendo, elas querem acabar com a dor da depressão, do significado da existência. Elas estão em uma situação da qual não encontram uma saída e aí elas saem da vida como forma de resolver o problema”, disse.

Para ele, é preciso falar cotidianamente sobre suicídio, “até na mesa do bar”. “Aquela pessoa que está vivendo o drama, pode encontrar um caminho ali para buscar uma ajuda. A gente tem que conversar com as pessoas. Quando uma pessoa diz que quer se matar, a gente tem que acreditar. A maioria dá sinal, 9 em cada 10 dão sinal”, ressaltou.

Segundo a psicóloga e coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, Karen Scavacini Karen, os sinais de alerta muitas vezes só fazem sentido depois da morte e são muito complexos de serem observados e entendidos. Entretanto, ela mostrou preocupação com o aumento do suicídio entre jovens. Segundo Karen, é importante lembrar que o cérebro só termina de se formar aos 21 anos e que os jovens têm mais impulsividade, menor autocontrole e menor consciência crítica.

“Temos visto jovens que não têm tolerância à frustrações, fazendo alto uso de álcool de drogas, jovens isolados”, disse ela, explicando que as redes sociais são umas das causas desse isolamento e frustração. “Por mais que haja um contato virtual, o contato significativo tem diminuído. E tudo que ele vê no Facebook e na rede social, ele acha que é verdade e compara com a própria vida, porque nas redes sociais todas as pessoas aparentam estar feliz sempre”, disse.

A pressão com a carreira, a pressão em ser o melhor são preocupações que pesam aos jovens, segundo Karen. “E um vazio existencial. O próprio sentido da vida das pessoas”, ressaltou.

Fatores de risco

A psicóloga Karen cita ainda a mídia e as séries de TV, como 13 Reasons Why, do canal de streaming Netflix, que, para ela, têm uma grande influência sobre os jovens. “Quando o jovem se identifica com o personagem, aumenta o risco de contágio”, disse. Na série, a personagem principal comete suicídio e tenta explicar as suas razões.

“A série é muito boa em trazer esse assunto para a realidade das pessoas. No geral, as pessoas acham que suicídio só acontece na casa do vizinho. O problema é que a grande maioria dos jovens viu a série mas não teve como conversar porque os pais não viram. Não teve um diálogo aberto sobre tudo que aconteceu com a Hanna [personagem que cometeu suicídio]”, disse, argumentando que a própria série, que trouxe à tona a discussão, poderia mostrar as saídas, os caminhos para se receber ajuda.

Uma outra questão que também influencia os jovens é a descoberta da homossexualidade, quando eles assumem isso perante a família e a sociedade. “Dependendo da maneira como a situação é tratada é um fator de risco para o suicídio”, disse. “A decisão recente de que homossexualidade pode ser tratada, pode aumentar esse fator de risco. É um retrocesso grande”, explicou.

Karen explicou ainda que muitos transtornos mentais iniciam na adolescência e muitas vezes é difícil para a família entender que o jovem precisa de ajuda especializada e que não são só “sintomas” de adolescência. A demora em receber o tratamento adequado, o tabu e o preconceito das pessoas em procurar o psiquiatra e o psicólogo são problemas que precisam de atenção.

Para ela, existe uma dificuldade de acesso a serviços de saúde, tanto para tratamento de uso de substâncias, quanto para jovens com comportamentos suicidas.

Além disso, é preciso um tratamento mais humano pelos profissionais de saúde quando as pessoas conseguem acessar esses serviços. “Tenho relatos de pessoas que foram maltratadas em prontos-socorros ou pelo médico. E isso é uma coisa comum. Eles não têm a formação em prevenção”, disse. “É preciso sensibilizar os profissionais que eles estão lidando com dor, que o suicídio é a resposta a uma dor terrível que a pessoa não conseguiu outra saída”.

Tentativas repetidas

Um grande fator de risco para o suicídio são as tentativas anteriores. Segundo Karen, os primeiros 30 dias depois da alta é o período de risco aumentado porque não há uma continuidade no cuidado com essas pessoas. “O que levou uma pessoa a tentar suicídio foi um sofrimento intenso e isso não vai embora. É preciso continuidade em termos de tratamento psiquiátrico e psicológico para a aceitação, para que não haja novas tentativas”, explicou.

Ela ressaltou, entretanto, que quem tenta o suicídio não está fadado a repetir esse comportamento, mas precisam de tratamento adequado.

Karen contou que um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou diminuição no risco de tentativas repetitivas de suicídio com o acompanhamento telefônico das pessoas que tentaram suicídio após a alta hospitalar. “Isso poderia ser feito por qualquer pessoa treinada. Eles apenas ligavam para saber como o outro estava”, explicou. “O retorno para casa dessas tentativas é mais difícil e precisa ser acompanhado para que a pessoa possa seguir caminhos mais saudáveis”.

Sobreviventes enlutados

Os sobreviventes enlutados, familiares ou amigos de pessoas que cometeram suicídio também merecem atenção, segundo Karen. Ela coordena um grupo de apoio aos enlutados pelo suicídio. “Há um julgamento muito grande e um julgamento transferido, julga aquele que tenta o suicídio e, quando ele consegue, julga quem fica porque não viu os sinais. É preciso olhar para quem perdeu alguém com empatia”, disse.

O aposentado Ivo Farias frequenta o grupo coordenado por Karen, além de outros. “Você para de viver. Você luta para se manter vivo, a vida perde o significado e, no meu caso, o significado é lutar por essa causa [de prevenção ao suicídio]. A maioria fica no anonimato porque é julgado a todo instante pelas pessoas a sua volta”, disse.

Ele explicou que, mesmo que a pessoa saiba que não é culpada, ela se sente responsável pela pessoa que se foi. “Sente uma certa incompetência porque não conseguiu mantê-la viva. A grande maioria dos enlutados esconde”, explicou.

Para Ivo, quando mais se falar em suicídio menos as pessoas vão ter receio em procurar ajuda e pedir apoio. “Nós enlutados somos suicidas em potencial. No primeiro ano [após a morte da filha], eu passava em viaduto e ficava pensando em me jogar. É uma dor que não diminuiu. Ou você se fortace e busca uma alternativa ou você definha e morre. Quando se fala abertamente, se consegue falar a palavra, a gente consegue superar”, disse.

CVV

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, 24 horas todos os dias.

Ele atende pelo número de telefone 141 ou diretamente no posto regional. Em cidades sem posto de atendimento do CVV, as pessoas podem utilizar o atendimento por chat, skype e e-mail, disponíveis na página do CVV .

*Colaborou Ivan Richard

Edição: Valéria Aguiar

Fonte: Agência Brasil - 23/09/2017

Dr. Antônio Geraldo - presidente eleito da associação psiquiátrica da América Latina, fala sobre dependência química e suicídio

“Levar informações corretas à população é uma das formas de alertar sobre a prevenção do suicídio, que é possível de ser feita” Dr. Antônio Geraldo

*Por Adriana Moraes

Suicídio é um assunto extremamente difícil e delicado, porém necessário e esse mês de setembro conhecido como “setembro amarelo” é dedicado a prevenção ao suicídio.

Falar do suicídio é o primeiro passo dentro da estratégia de prevenção. Porque, falando nós estamos compartilhando informações importantes, trazendo o tema à tona e assim permitindo a construção de uma rede de proteção que envolva toda a sociedade. [1]

A dependência química de crack/cocaína combinada entre eles o transtorno de estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade, a distimia, bem como os transtornos de personalidade borderline, pode aumentar em até 10 vezes o risco de suicídio com algumas dessas comorbidades. [2]

Psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva

O psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva, Diretor Tesoureiro da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e Presidente Eleito da APAL (Associação Psiquiátrica da América Latina), esclarece para nossos leitores diversas questões sobre o uso de drogas e suicídios.

Suicídio e dependência química, ambos são carregados de preconceito e estigma. Esse tema é de grande importância, principalmente, por conta do grande aumento de pessoas que tiram a própria vida em nosso país.

Entrevista:

1ª) Usuários de drogas são responsáveis por um número maior de tentativas de suicídio?
Os transtornos por uso de substâncias estão em segundo lugar nos casos de morte por suicídio, atrás apenas dos transtornos de humor, com a incidência de 22,4%.

2ª) Hoje o suicídio pode ser definido como uma epidemia silenciosa?
Podemos definir o suicídio como um problema de saúde pública, mas é necessário tomar cuidado com a palavra "epidemia". Além do termo não ser adequado para o caso, a ênfase pode trazer o foco de forma positiva, causando alarme.

3ª) Em que idade os suicídios são mais frequentes e qual a taxa de suicídios no Brasil?
O suicídio atinge principalmente dois grupos, adolescentes e jovens adultos (alguns estudos apontam entre 15 a 29 anos) e idosos. Nos jovens, as motivações são complexas incluindo humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais. Para os idosos, os fatores se devem a perda de parentes (especialmente cônjuges), solidão, doenças degenerativas e dolorosas, se sentir um peso para os demais membros da família.

Em 2015, foram aproximadamente 12 mil casos de suicídio no Brasil. Mas acreditamos que esse número é muito maior, devido à subnotificação: nem todos os casos de morte por suicídio são notificados compulsoriamente, como orienta o Ministério da Saúde. Isso se deve ao grande tabu que o suicídio ainda representa e a fatores religiosos, ou ainda, devido a questões como seguro de vida.

4ª) Na matéria da Revista Exame em agosto de 2014, o Sr. disse que: “Ao contrário do que se pensa, as pessoas não vão se matar se a mídia falar mais sobre o suicídio, o importante é a orientação sobre isso”. Atualmente como a mídia trata o problema do suicídio e como tem colaborado nesta campanha?
O tratamento que a mídia dá ao tema já melhorou muito, mas ainda não está adequado. Grandes meios de comunicação já seguem as recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre o noticiamento das mortes por suicídio, mas grande parte ainda o faz de forma irresponsável. Infelizmente, ainda são poucos os meios de comunicação que se atentam para esse cuidado. Com isso em vista, a ABP relançou o seu manual dirigido a profissionais da imprensa, que orienta quanto à forma correta de noticiar, ele está disponível para download em nosso site. [3]

O apoio da mídia é fundamental para que possamos modificar esse triste panorama e a ABP está à disposição. Levar informações corretas à população é uma das formas de alertar sobre a prevenção do suicídio, que é possível de ser feita.

5ª) Como a mídia deve noticiar um suicídio?
Geralmente, o suicídio vira notícia em casos específicos, como o envolvimento de pessoas famosas ou situações de grande violência. O ideal é que, acompanhando a notícia, venham informações que mostrem que o suicídio pode ser evitado - entrevistas com sobreviventes, a relação deste tipo de morte com a presença de doenças mentais que, quando tratadas corretamente, anulam o risco de suicídio.

6ª) Por que os jovens brasileiros estão cometendo suicídio no auge de sua juventude?
O suicídio de jovens e adolescentes se deve a uma gama de fatores, que são muito complexos. Como nas outras faixas etárias, também há a presença de doenças mentais, como depressão e ansiedade.Como respondido em uma das perguntas acima, há também o abuso de substâncias, que começa cada vez mais cedo, os problemas emocionais e familiares naturais do período da adolescência. Alguns outros aspectos como rejeição familiar, negligência e episódios de abusos físicos e/ou sexuais na infância também são fatores de risco.

7ª) Recentemente a mídia passou a falar mais sobre o suicídio entre jovens, especialmente por conta da série “os 13 porquês”, que aborda a vida de uma adolescente que tira a própria vida e a disseminação do jogo suicida praticado pela internet “Baleia Azul” composto por diversos desafios, envolvendo a automutilação, isolamento social e incentivo ao suicídio. Dr. Antônio, em sua opinião a mídia está correta em divulgar esses 02 fenômenos?
Falar sobre o assunto é imprescindível, mas deve ser feito da forma correta. Temos que ter em mente que a série ou o jogo, por si só, não influenciam ninguém ao suicídio - é uma combinação de fatores que culminam com as informações do jogo/série. Precisamos mostrar ao jovem que há alternativas ao suicídio através do tratamento da depressão, mostrando casos de superação das ideações suicidas.

8ª) O suicídio geralmente está ligado à transtornos mentais e a depressão?
Com certeza. Mais de 90% das mortes por suicídio estão relacionadas com alguma doença mental. As de maior incidência são os transtornos de humor (como a depressão e o transtorno bipolar), transtornos por uso de substâncias, a esquizofrenia e os transtornos de personalidade. Quando há comorbidade, ou seja, mais de um transtorno psiquiátrico em um paciente, os riscos são ainda maiores.

9ª) Como podemos ajudar a prevenir o suicídio?
Falar corretamente sobre o assunto e ajudar a diminuir o tabu é uma das formas. Lembrar que o suicídio é evitável e que o tratamento das doenças psiquiátricas é fundamental para que ele não aconteça. Ficar mais atento aos nossos colegas, familiares e, ao perceber alguma característica de transtorno mental ou ideação suicida, auxiliá-lo na busca por tratamento. A prevenção do suicídio envolve a todos, individual e coletivamente. Sociedade civil organizada, por público, médicos psiquiatras e seus pacientes/familiares. Todos devemos fazer a nossa parte para mudar este triste quadro.

Dr. Antônio, grata pelas informações sobre esse tema polêmico, mas muito importante!

*Adriana Moraes - Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências

[1] Trigueiro, André, 1966 – Viver é a melhor opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo/André Trigueiro – São Bernardo do Campo. SP: Correio Fraterno, 2015.

[2]O tratamento do usuário de crack - Marcelo Ribeiro, Ronaldo Laranjeira (Orgs) 2ª edição – Porto Alegre: Artmed, 2012.

[3] http://www.abp.org.br/portal/wp-content/upload/2017/08/cartilhaA5_2017.pdf

Fonte: UNIAD - 15/09/2017

Pessoas que precisam ser ouvidas e cuidadas

http://tribunademinas.com.br

Por Marcos Araújo

O telefone toca. Respiração ofegante. De um lado, um coração solitário. Do outro, um coração solidário. No primeiro, a busca por uma palavra de conforto. No segundo, a vontade de confortar por meio da palavra. Uma conversa amiga pode ser a tábua de salvação para quem está às voltas com pensamentos suicidas. Uma estilista juiz-forana, de 38 anos, já passou cerca de 90 horas ao telefone, ao longo de um ano e meio, atendendo ligações como plantonista voluntária e anônima no SOS Preces, trabalho de valorização da vida desenvolvido pela Fundação Espírita Allan Kardec (Feak). O serviço atende aproximadamente 200 pessoas por dia, e 10% delas têm tendência ao autoextermínio.

Em Juiz de Fora, 31 pessoas cometeram suicídio em 2016, conforme dados da Polícia Militar. Este ano, até maio, 11 ocorrências já haviam sido registradas. Os números se assemelham aos divulgados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que aponta, em 2014, a morte de 33 pessoas por autoextermínio na cidade, contra 32 em 2013. De acordo com o Mapa da Violência, o município ocupava em 2012 a 707ª posição no país. O tema ganha destaque este mês diante da criação da campanha Setembro Amarelo. Em Juiz de Fora, haverá programação para debater o assunto (ver quadro).

Em todo o planeta, os registros surpreendem, pois estima-se que, a cada 40 segundos, uma pessoa tire a sua própria vida, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). São 800 mil suicídios registrados por ano em todo o mundo. No Brasil, são 12 mil anualmente, o que coloca o país em quarto lugar em termos percentuais e primeiro em números absolutos na América Latina. Dados tão alarmantes dão ao suicídio o status para ser tratado como problema de saúde pública. Para a OMS, o comportamento suicida é um fenômeno complexo, que tem vários motivadores inter-relacionados. As razões podem ser pessoais, sociais, psicológicas, culturais, biológicas e ambientais. Justificativas suficientes para que essa tragédia que leva prematuramente uma vida seja tratada com cautela, a fim de evitar simplificações ou conclusões precipitadas acerca do tema.

90% poderiam ser evitados

Para a voluntária da Feak, o suicídio significa que há alguém com depressão, com pensamentos negativos e que precisa ser ouvida e cuidada. “Temos que tentar contornar isso numa boa conversa, com uma palavra amiga, um conforto. Essas situações são delicadas, e nos sentimos na obrigação de reverter esse quadro”, afirma a estilista, ressaltando que o suicídio pode e deve ser prevenido.

Sim, ao contrário do que muitos pensam, 90% dos casos de suicídio consumados, como apontam estudos, são preveníveis, porque a pessoa tem algum tipo de transtorno mental, principalmente, quadros de depressão e problemas relacionados ao consumo de bebida alcoólica e outras drogas, que são possíveis de tratamento. De acordo com o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFJF Alexander Moreira-Almeida, em um episódio agudo de depressão, o indivíduo fica com uma visão de mundo distorcida. “Ele se enxerga de forma pessimista e não tem boas expectativas sobre o futuro. Se considera um peso para outras pessoas e se vê em um grande sofrimento”, explica.

Quando o sujeito com tendência suicida tem um tratamento adequado, medicamentoso e psiquiátrico, consegue superar o transtorno e, no futuro, quando reavalia os pensamentos de autoextermínio, impressiona-se ao perceber o quanto sua mente estava limitada em relação à realidade à sua volta. “Hoje já se sabe que uma grande barreira ao tratamento é a autoestigmatização, na qual o paciente acha que se ele buscar o tratamento é um sinal de fraqueza e não percebe que é um problema que qualquer ser humano pode passar e superar”, ressalta o professor.

Isolamento social é sinal de alerta

Quando alguém passa a evitar, cada vez mais, contato social, mantendo-se isolado, derrotista, verbalizando pensamentos de morte, é preciso acender o sinal de alerta e apoiá-lo a buscar ajuda. Neste sentido, familiares e amigos têm papel primordial. Todavia, conforme aponta o psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida, não é adequado adotar a conduta de passar a mão na cabeça, o que pode gerar um tipo de manipulação emocional, mas é preciso contribuir para que a pessoa transtornada encontre meios de superar o sofrimento, oferecendo um ombro amigo e informações.

Entre 70% e 90% dos casos, os suicidas, de alguma forma, manifestam o desejo de acabar com a própria vida por meio de verbalização de ameaças, tentativas frustradas ou cartas de despedidas. A história de que quem ameaça não tem coragem de seguir em frente em busca pela morte é balela e, na visão do professor da UFJF, esses sinais não podem ser negligenciados. “Isso pode ser considerado como um pedido inadequado de socorro, pois a pessoa precisa de ajuda e não consegue se fazer ouvir e, muitos vezes, a fala e o comportamento de tentativa de suicídio podem ser um pedido de ajuda. Não significa que ela simplesmente quer chamar a atenção, embora isso também possa existir, mas não é o habitual”, pontua Alexander.

Efeito dominó

Poesia, romances, música, filmes, reportagens, transmissões na rede social. Farto é o material que aborda o suicídio, alguns até com orientações sobre como praticá-lo. Ao longo dos tempos, o ato de tirar a vida com as próprias mãos vem sendo tratado de forma ficcional e não-ficcional, e há a percepção de que isso pode influenciar as pessoas. Essa ideia faz referência ao escritor alemão Goethe que, em 1774, lançou o romance “Os sofrimentos do jovem Werther”. Ao morrer por amor, no final do livro, o personagem teria levado diversos jovens ao suicídio depois de lerem a obra. O fenômeno originou o chamado “Efeito Werther”, usado para descrever a imitação de suicídios. Segundo o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFJF, Alexander Moreira-Almeida, o ato de se autoexterminar contagia, porque mostra que a pessoa não encontra uma solução e acaba morrendo, inspirando indivíduos que estão em situação de fragilidade.

O psiquiatra lembra que, na literatura médica, há um estudo que aponta que, quando se divulga o suicídio de modo muito sensacional, pode-se colaborar para o aumento de suas taxas. “Um exemplo clássico é o estudo a respeito do metrô de Viena, na Áustria, onde as pessoas pulavam para se matar. Isso começou a ser noticiado, e houve uma epidemia de óbitos. Esse círculo de mortes só terminou após uma articulação entre a Sociedade Austríaca de Psiquiatria e a mídia local, resultando na queda dos casos em 75%. Ele chama a atenção para a maneira como a imprensa juiz-forana noticia as mortes acontecidas ao longo da linha férrea que corta o município, pois, segundo ele, algo muito parecido pode estar acontecendo, como em Viena.

“O suicídio pode ser divulgado, mas é preciso evitar o sensacionalismo. O mais importante para prevenir é mostrar que muitas pessoas pensam em situação de suicídio, mas a imensa maioria encontra meios mais adequados e saudáveis para lidar com seus problemas. É preciso mostrar o inverso, no qual muitos passaram pelo problema e, no final, conseguiram encontrar um outro caminho. É muito comum na vida passarmos por situações e imaginarmos que não daremos conta e, depois, vemos que é possível. A mídia deve mostrar a importância do assunto, que a maioria dos casos é prevenível, que é possível buscar ajuda médica, religiosa, familiar, psicológica e que a maioria das pessoas consegue superar”, destaca o professor.

Qual a maneira de falar sobre o suicídio


No ano de 2009, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) lançou o manual para a imprensa sobre como as notícias a respeito de suicídio devem ser tratadas, alertando a mídia para o fato de o comportamento suicida ser um ato de ambivalência entre o querer morrer e o querer viver de forma diferente. O jornalista André Trigueiro, autor do livro “Viver é a melhor opção”, que estuda o fenômeno do suicídio e as diferentes estratégias de prevenção desde 1999, ressalta que o tema é complexo e exige cuidado na sua abordagem, pois a prevenção se faz com informação. “No caso do suicídio, a informação vai ao encontro de uma estatística produzida para Organização Mundial de Saúde, dando conta de que, em pelo menos 90% dos casos, os suicídios estão relacionados a psicopatologias diagnosticáveis e tratáveis. Então, se as pessoas têm informação sobre essas patologias de ordem mental, elas podem, sim, se livrar da tendência ao suicídio. Tudo depende de como se fala, que cuidados e protocolos devem ser obedecidos para que, sim, isso seja visto como importante, para que se quebre o tabu sem, entretanto, afrontar os protocolos de segurança estabelecidos pela OMS na abordagem desse assunto”, considera Trigueiro.

Para ele, a cobertura da mídia sobre o tema, priorizando a prevenção, deveria, em resumo, evitar abrir espaços generosos com manchetes, fotos e imagens de casos de suicídio, evitando descrever em detalhes o método empregado. “Só falar de caso de suicídio quando isso for de interesse público. Neste sentido, seguindo esta e outras recomendações, a gente conseguiria diminuir o risco de pessoas fragilizadas psicoemocionalmente perceberem nesse conteúdo um fator de desequilíbrio.”

Necessidade de debate sobre políticas públicas


Prevenção ao suicídio também se faz com políticas públicas. No Brasil, em 2006, o Ministério da Saúde lançou a Estratégia Nacional para Prevenção ao Suicídio, numa tentativa de articular universidades, instituições de pesquisa, ONGs etc e apoiar as iniciativas que pudessem reduzir os óbitos e tentativas de suicídio no país, os danos associados aos comportamentos suicidas, assim como o impacto traumático do suicídio na família, entre amigos e companheiros, nos locais de trabalho, nas escolas e em outras instituições, como assinala o jornalista André Trigueiro em seu livro “Viver é a melhor opção”. Entretanto, há ainda muito o que se fazer para que essas estratégias resultem em um trabalho efetivo de prevenção.

Para André Trigueiro, o suicídio não faz parte das prioridades de saúde. Mas ele avalia que, de lá para cá, houve avanços. Um deles é o anúncio do Ministério da Saúde, tornando gratuitas, em todo o território nacional até 2020, as ligações feitas ao Centro de Valorização da Vida (CVV). “Quem liga para o CVV hoje, exceto no Estado do Rio Grande do Sul, onde a ligação é gratuita pelo 188, nos demais estado do Brasil onde o CVV está presente, existe o custo da tarifa local. Quando o Ministério da Saúde anuncia a gratuidade, está apoiando a mais antiga e eficiente organização que realiza um trabalho voluntário de apoio emocional e de prevenção do suicídio”, avalia.

Fonte: UNIAD - 08/09/2017

Cocaína tem ação mais devastadora no cérebro de adolescentes

Jornal USP
Por Júlio Bernardes - Editorias: Ciências da Saúde

Usuários de cocaína de início precoce, antes dos 18 anos, exibem alterações neuropsicológicas mais pronunciadas, com prejuízos nas funções do cérebro. A constatação é feita em pesquisa do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) que avaliou 103 dependentes da substância. O estudo liderado pela neuropsicóloga Bruna Mayara Lopes aponta ainda que os usuários precoces tem maior frequência de consumo de outras substâncias, como álcool e maconha, do que o grupo de início tardio, após os 18 anos.

A adolescência é um período crucial para o desenvolvimento neurológico. “Nessa fase da vida, o cérebro está em transformação, e acontece a chamada poda neural, quando neurônios sem uso são eliminados para refinar o funcionamento de outras áreas do cérebro, como o córtex frontal”, afirma Bruna. “Essa área é muito importante para a realização de funções executivas, tais como a memória do trabalho (capacidade de manter um número de informações enquanto executa uma tarefa), o controle inibitório e o planejamento. O uso de cocaína na adolescência pode levar a alterações, comprometimento e perda de funções cerebrais importantes para o dia-a-dia”.

A neuropsicóloga aponta que poucos estudos têm investigado o impacto do uso precoce da cocaína no desempenho cognitivo e nos padrões de uso de substâncias como álcool e maconha. “A pesquisa envolveu 103 pacientes dependentes de cocaína. Entre eles, havia 52 com início precoce, ou seja, que começaram a usar a substância antes dos 18 anos, em média por volta dos 15 anos. Outros 51 tiveram início tardio no uso de cocaína, após os 18 anos, em média com 21 anos”, relata. “Além disso, para comparar os resultados dos testes, foi avaliado um grupo controle com 63 pessoas saudáveis”.

Testes

O funcionamento neuropsicológico foi avaliado por meio de uma bateria de testes com duas horas de duração. “Os testes avaliaram a memória de trabalho, a atenção sustentada, ou seja a manutenção de foco durante a realização de uma tarefa e a memória declarativa, que é a capacidade de resgatar uma informação que foi recebida há 30 minutos”, explica Bruna. “O uso de álcool, maconha e tabaco foi avaliado por meio de questionário que mede o índice de gravidade de dependência”.

De acordo com a neuropsicóloga, “as análises mostraram que o grupo de usuários precoces apresentou maior déficit cognitivo, com pior desempenho na atenção sustentada, na memória de trabalho e na memória declarativa em relação ao grupo controle”. O grupo de início tardio apresentou comprometimento na atenção dividida na comparação com as pessoas saudáveis. “Os usuários precoces também apresentaram maior uso de maconha e álcool do que os de início tardio”, acrescenta.

Usuários precoces apresentaram maior déficit cognitivo, com pior desempenho na atenção sustentada, na memória de trabalho e na memória declarativa.”

Os déficits cognitivos mais proeminentes nos usuários precoces provavelmente refletem um impacto negativo do uso de cocaína nos estágios do neurodesenvolvimento na adolescência. Isto pode estar relacionado com características clínicas mais severas do transtorno de substância neste subgrupo, incluindo abuso de outras substâncias, como álcool e cocaína. “O cérebro ainda pode se desenvolver até os 21 ou 22 anos, porém o uso precoce de cocaína pode causar prejuízo a áreas que estão em fase importante de formação”, afirma Bruna.

O estudo completo, publicado na edição de outubro de 2017 da revista Addictive Behaviors, pode ser acessado no site da publicação. Além de Bruna, o artigo é assinado por Priscila Dib Gonçalves, Mariella Ometto, Bernardo dos Santos, Mikael Cavallet, Tiffany Moukbel Chaim-Avancini, Maurício Henriques Serpa, Sérgio Nicastri, André Malbergier, Geraldo Busatto, Arthur Guerra de Andrade e Paulo Jannuzzi Cunha.

Mais informações: (11) 2661-7801, com Julieta Magalhães, na Assessoria de Imprensa do IPq

Fonte: UNIAD - 01/09/2017

Uma injeção de esperança contra as drogas


The Economist, O Estado de S.Paulo

Entre 2000 e 2015, 500 mil pessoas morreram de overdose de drogas, só nos Estados Unidos. Na maior parte dos casos, as mortes foram provocadas por opioides, uma classe de analgésicos, geralmente sintéticos, relacionados com a morfina, que provocam dependência química. No último dia 8, o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Tom Price, mencionou o possível desenvolvimento de uma vacina para prevenir a dependência. Especialistas advertiram que isso está muito longe de tornar-se realidade. Mas há pesquisas em andamento. Estudo publicado na quarta-feira, por exemplo, relata a busca por uma vacina contra a fenetilina, droga bastante popular em certas regiões do Oriente Médio.

A fenetilina é um estimulante, não um analgésico. Também não é uma substância pura, e sim o resultado da combinação de duas drogas. Um de seus componentes é a anfetamina, que é, por si, só um estimulante bastante conhecido, para o qual há um grande mercado negro. O outro é a teofilina, usada no tratamento de problemas respiratórios, como a doença pulmonar obstrutiva crônica. A fenetilina foi desenvolvida nos anos 1960, com o nome comercial de Captagon, para tratar hiperatividade em crianças, mas não é mais empregada com essa finalidade. Apesar de sua comercialização hoje ser ilegal na maior parte do mundo, ela ainda é utilizada com fins recreativos. As apreensões da droga nos países árabes representam um terço do total de anfetaminas apreendidas no mundo. Na Arábia Saudita, 75% das pessoas tratadas por problemas com drogas são dependentes de anfetaminas, na maioria dos casos sob a forma da fenetilina.

Por causa de sua natureza dupla, há um debate entre os cientistas sobre a forma como a fenetilina atua. Em vista disso, Cody Wenthur, Bin Zhou e Kim Janda, do Instituto de Pesquisas Scripps, com sede em La Jolla, na Califórnia, decidiram tentar desenvolver vacinas contra seus dois componentes, contra os produtos de sua decomposição metabólica, bem como contra a droga como um todo, em um processo que os cientistas chamaram de “vacinação incremental”.

O desenvolvimento de qualquer vacina implica estimular o sistema imunológico a reconhecer a substância contra a qual se deseja proteger o organismo. Acontece que o sistema imunológico tende a reconhecer e criar anticorpos apenas contra moléculas grandes, como as proteínas. A maioria das drogas é muito pequena para ser reconhecida. É por isso que os fumantes e usuários de cocaína não desenvolvem imunidade contra seus vícios: a nicotina e a cocaína são invisíveis para o sistema imunológico. O mesmo acontece com a anfetamina e a teofilina.

Pequeno é problema. Vacinas contra moléculas pequenas podem ser desenvolvidas por meio da combinação de versões dessas moléculas com proteínas transportadoras, a fim de criar um complexo grande o bastante para provocar uma reação imunológica. A equipe do Scripps optou pela hemocianina, proteína derivada de um caramujo chamado “keyhole lipet” Megathura crenulata, que é particularmente eficaz nesse quesito.

A ideia dos pesquisadores era a seguinte: como os anticorpos são, por si só, moléculas grandes, se o sistema imunológico pudesse ser induzido a produzir anticorpos contra os componentes da fenetilina, a combinação das moléculas da droga com os anticorpos seria grande demais para atravessar a barreira hematoencefálica — sistema de células muito próximas umas das outras, que forra os vasos sanguíneos do cérebro, a fim de impedir a entrada de coisas perigosas no órgão. Mantidas do lado de fora do cérebro, as drogas não teriam como afetá-lo.

Para realizar o experimento, os cientistas utilizaram ratos de laboratório. Injetaram diversas versões de vacinas nos roedores e acompanharam de perto seu comportamento, prestando atenção principalmente em níveis incomuns de ansiedade e padrões estranhos de movimentação. Também verificaram os níveis de presença das moléculas da droga na corrente sanguínea e no cérebro dos animais.

A utilização da abordagem incremental permitiu que a equipe de pesquisadores acompanhasse os efeitos de diferentes moléculas nos padrões de atividade dos animais. Verificou-se, por exemplo, que a teofilina presente na fenetilina amplifica o efeito da anfetamina.

Mais importante que isso porém, foi observar os efeitos da vacina contra a fenetilina como um todo. Ao receberem uma dose da droga, os ratos em que essa vacina havia sido previamente injetada exibiram expressiva redução, na comparação com os animais não vacinados, no tipo de movimentos incessantes que a fenetilina provoca. Além disso, quantidade 30 vezes maior da droga permanecia bloqueada na corrente sanguínea, em vez de penetrar o cérebro dos ratos vacinados.

É um resultado promissor. Ainda que a ideia de uma vacina preventiva, como a desejada por Price, continue muito distante, o estudo mostra que talvez seja possível desenvolver um imunizante para tratar pessoas já dependentes da droga. É bem verdade que as tentativas anteriores para desenvolver vacinas contra drogas de moléculas pequenas, incluindo metanfetamina, nicotina, cocaína e morfina, acabaram todas se mostrando infrutíferas. Mas as coisas podem ser diferentes desta vez.

TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER

Fonte: UNIAD - 26/08/2017

"Depressão - Vamos conversar" é o tema escolhido da campanha da OMS para o dia mundial da saúde de 2017

*Por Adriana Moraes

No dia 07 de abril comemora-se o Dia Mundial da Saúde, data criada com a finalidade de alertar a população a respeito dos vários aspectos que envolvem a saúde. Este ano o tema escolhido da Campanha Anual da OMS (Organização Mundial da Saúde) foi depressão. Com o lema “Let’s talk” (“Vamos conversar”, em português), a iniciativa reforça que existem formas de prevenir a depressão e também de tratá-la, considerando que ela pode levar a graves consequências, até mesmo o suicídio.
Todos os anos são realizadas campanhas a respeito de um tema diretamente relacionado com a saúde. O principal objetivo desta data é conscientizar as pessoas sobre a importância da preservação da saúde para ter uma melhor qualidade de vida.

Relembre alguns temas do Dia Mundial da Saúde:
- Diabetes;
- Do campo à mesa, obtendo alimentos seguros;
- Prevenindo doenças transmitidas por vetores;
- Resistência aos antimicrobianos;
- A saúde urbana é importante;
- Salvar vidas – Hospitais seguros em situações de emergência;
- Proteção da saúde das alterações climáticas e outros temas diversos.


Tema de 2017: Depressão

A depressão resulta de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolver depressão. [1]

Segundo a definição da OMS, a depressão é muito mais que um acesso de melancolia. Trata-se de um transtorno mental no qual o afetado mostra "uma tristeza permanente e uma perda de interesse pelas atividades que as pessoas costumam desfrutar, acompanhadas da incapacidade de realizar tarefas diárias, durante duas semanas ou mais". [2]

Do ponto de vista psicopatológico, os quadros depressivos têm como elemento central o humor triste. Num episódio depressivo grave, podem ocorrer sintomas psicóticos como delírio (uma ideia ou um pensamento que não corresponde à realidade, o delírio é um juízo falso, seu conteúdo é impossível) e alucinação (a percepção clara e definida de um objeto “voz, ruído, imagem” sem a presença do objeto estimulante real).

O Brasil tem a maior taxa de pessoas com depressão na América Latina e uma média que supera os índices mundiais. Dados publicados pela OMS apontam que 322 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa 4,4% da população do planeta. [3]

A depressão é responsável por retirar do mercado de trabalho milhares de profissionais todos os anos. Em 2016, 75,3 mil trabalhadores foram afastados em razão do mal, com direito a recebimento de auxílio-doença em casos episódicos ou recorrentes. Eles representaram 37,8% de todas as licenças em 2016 motivadas por transtornos mentais e comportamentais, que incluem não só a depressão, como estresse, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia e transtornos mentais relacionados ao consumo de álcool e cocaína. [4]

Sintomas da depressão

Em entrevista para a Revista Exame, o psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva, Presidente da APAL (AssociaçãoPsiquiátrica da América Latina), explicou que a tristeza e o desânimo podem ser sintomas da depressão, mas não são os únicos, é possível haver sinais físicos, como perda ou ganho de peso, dores inexplicáveis no corpo e insônia ou sonolência em excesso. Entre os sintomas psíquicos estão: desânimo intenso, cansaço, apatia, falta de vontade de fazer suas tarefas, falta de prazer, de alegria, choro fácil, temperamento explosivo, irritabilidade. [5]

O psiquiatra alertou também que, em cada 100 pessoas com depressão grave, 15 cometem suicídio. O número é preocupante, mas pode ser revertido se preconceitos forem combatidos e informações forem divulgadas.

Depressão e uso de álcool

Os problemas relacionados ao álcool e depressão são as duas doenças psiquiátricas, isoladamente, mais comuns encontradas na população. Também estão entre as doenças que mais custam aos cofres públicos. Pela grande capacidade de o álcool produzir sintomatologia semelhante à da depressão e também de mascará-la, o diagnóstico desta deve ser feito com cautela e de preferência após um período de abstinência.
Em geral, a depressão antecede o surgimento da dependência do álcool, principalmente em mulheres, porém, na maioria das vezes, é difícil determinar o transtorno primário e o secundário, visto que há interferência entre os transtornos depois de instalada a comorbidade. [6]


Depressão - Tratamento

Uma das principais dificuldades enfrentadas por quem sofre de depressão é fazer com que os outros entendam que ela não é “frescura”, mas uma doença como outra qualquer, por exemplo, a hipertensão ou diabetes. Essa patologia precisa ser tratada por um psiquiatra, capaz de orientar e, se necessário, medicar adequadamente o paciente. Existem tratamentos eficazes para depressão moderada e grave.

Não é fácil decidir qual tratamento da depressão adotar.Profissionais de saúde podem oferecer tratamentos psicológicos, como ativação comportamental, terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia interpessoal, os médicos psiquiatras indicam os medicamentos antidepressivos. A psicoterapia em conjunto também pode ser muito útil, mas o tratamento médico é essencial.

Encerro com a frase do psiquiatra Augusto Cury: “ Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”

*Adriana Moraes - Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:
[1]https://nacoesunidas.org/depressao-e-tema-de-campanha-da-oms-para-dia-mundial-da-saude-de-2017/
[2]http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/03/1871343-depressao-e-a-maior-causa-de-incapacitacao-no-mundo-diz-oms.shtml
[3]https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2017/02/23/brasil-e-o-pais-mais-depressivo-da-america-latina-revela-oms.htm
[4]http://oglobo.globo.com/economia/mais-de-75-mil-pessoas-foram-afastadas-do-trabalho-por-depressao-em-2016-20913028
[5]http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/6-fatos-sobre-depressao-que-todo-mundo-precisa-saber/
[6] Dependência Química: prevenção, tratamento e políticas públicas / Alessandra Diehl – Daniel Cruz Cordeiro – Ronaldo Laranjeira - Porto Alegre: Artmed, 2011.

Fonte: UNIAD - 08/04/2017

O que falta às crianças e jovens viciados em tecnologia?

O uso de dispositivos tecnológicos por crianças e jovens está longe de ser prejudicial. Se bem orientado, pode estimular a criatividade, o raciocínio lógico, a colaboração, a capacidade de pesquisa e outras competências valiosas para o mundo contemporâneo. No entanto, é preciso moderação. O aumento da dependência de eletrônicos tem preocupado pais e educadores do mundo todo.

O fato de que boa parte das tarefas cotidianas envolve cada vez mais tecnologia torna difícil definir esse equilíbrio. É comum que, mesmo entre os adultos, a distinção entre o trabalho e o lazer se faça apenas pela troca de aplicativos: fecham-se o e-mail e os programas do computador, abrem-se as redes sociais.

Da mesma forma, as crianças usam tecnologias na escola e ao fazer os deveres de casa. Depois, vão para os jogos e as mensagens digitais – muitas vezes, sem nem sair do quarto. Passam os dias, uns e outros, plugados em monitores. Até que, em alguns casos, o hábito se transforma em dependência.

Entre crianças e jovens, as consequências do uso excessivo de eletrônicos se percebem tanto em problemas físicos (tendinites, sobrepeso), como também mentais e emocionais (isolamento social, dificuldade de concentração, transtornos do sono), com reflexo também nos resultados escolares.

Como no caso de qualquer outro vício ou compulsão, a questão central é detectar o que está na origem do distúrbio. No caso das crianças e adolescentes, algumas das hipóteses a investigar são:

- Falta de motivação: Por que as outras dimensões da vida não lhe provocam o mesmo interesse e fascínio que um aparelho tecnológico?

- Carência nos relacionamentos: Existem lacunas ligadas à afetividade que os dispositivos eletrônicos estão ajudando a compensar?

- Falta de limites: Como é feita a organização da rotina de estudo e lazer e de que forma a família controla o cumprimento saudável das normas?

- Influências dos amigos: Estar plugado dia e noite, participar de jogos e das redes sociais é sinal de status e até uma necessidade para ser aceito no grupo?

Como prevenção, o exemplo da família é fundamental. Os pais precisam evitar usar os dispositivos para tranquilizar a criança, para que fique quieta por algumas horas, e evitar que as crianças se isolem jogando durante as refeições. Há que dosar a compra de novos jogos, pois o momento em que a criança se cansa de um deles é a oportunidade de alternar com atividades fora da web.

Vale marcar um horário para o uso e garantir que seja respeitado. Uma experiência interessante é a negociação de horas de uso de eletrônicos com outras tarefas, por exemplo: se arrumar o quarto, ganha mais quinze minutos de internet. E o principal, sobretudo com crianças: participar das atividades digitais junto com elas. Não só para monitorar, mas porque o relacionamento com os pais, em atividades desfrutadas em comum, pode ser o melhor dos presentes.

Fonte: G1 - 14/01/2017

Estudo genético confirma associação da maconha com esquizofrenia

Revista Veja

Um estudo genético feito por pesquisadores britânicos mostrou que pessoas com esquizofrenia são mais propensas a fazerem uso de maconha de forma abusiva e de desenvolverem sintomas psicóticos. (iStock/Getty Images)

Pesquisa publicada recentemente no periódico científico Psychological Medicine comprovou por meio de análises genéticas o que estudos anteriores já haviam sugerido de forma observacional: o consumo da maconha é particularmente perigoso para pessoas com propensão genética à esquizofrenia, mas, principalmente, que os esquizofrênicos tendem a usar mais a droga.

Evidências genéticas

No novo estudo, pesquisadores da Escola de Psicologia Experimental da Universidade Bristol, no Reino Unido analisaram fatores genéticos que podem prever se uma pessoa é suscetível a usar cannabis e também sua suscetibilidade à esquizofrenia. Os resultados confirmaram que começar a fumar maconha pode sim aumentar o risco de esquizofrenia, mas, em especial, uma pessoa que carrega genes associados à doença são mais propensas a se tornarem usuárias da droga e a fazer isso de forma abusiva.
Uma das possíveis explicações para essa relação, segundo os autores, é que os fatores genéticos para a esquizofrenia são mais fortes do que aqueles para o uso da cannabis.

Marcus Munafò, coautor do estudo, especula também que “certos comportamentos ou sintomas associados ao risco de esquizofrenia podem ser aliviados pelos efeitos da cannabis”. Em outras palavras, o consumo de cannabis pode ser uma espécie de automedicação nessas pessoas.
Outra possível explicação, segundo o especialista, é que “as pessoas com maior risco de esquizofrenia podem desfrutar mais dos efeitos psicológicos da cannabis. Há um consenso crescente de que o consumo de cannabis pode aumentar o risco de desenvolver esquizofrenia. Nossos resultados apoiam isso, mas também sugerem que aqueles com maior risco de esquizofrenia podem ser mais propensos a experimentar cannabis”.

Maconha e esquizofrenia

Estudos anteriores já haviam mostrado que o consumo de maconha é mais comum em pessoas com psicose do que entre a população em geral e que, em muitos casos, esse hábito também pode aumentar o risco de sintomas psicóticos. O uso da droga já foi associado a sintomas do distúrbio, como paranoia e pensamentos delirantes, em até 40% dos usuários.
No início desse ano, de acordo com o site especializado Medical News Today, pesquisadores alertaram que pessoas jovens que usam cannabis poderiam aumentar seu risco de desenvolvimento de problemas psicóticos. Além disso, pessoas com esquizofrenia parecem ter uma maior chance de experimentar sintomas psicóticos ao usarem a droga. Entretanto, até o momento, esses resultados não foram considerados definitivos e especialistas pediram mais pesquisas.

THC versus CBD

Em relação ao papel da maconha em aumentar ou reduzir os sintomas de esquizofrenia, Munafò afirma que, embora sejam necessários mais estudos, pesquisas existentes sugerem que dois dos constituintes da cannabis, o tetrahidrocannabinol (THC) e o canabidiol (CBD), podem ser os responsáveis por esses efeitos contraditórios.
De acordo com o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas dos Estados Unidos (Nida, na sigla em inglês), enquanto a intoxicação por THC tem sido associada com experiências psicóticas transitórias, o CBD não desencadeia alterações mentais e pode ter potencial como uma medicação. Entretanto, a maconha “recreacional” tem um alto teor de THC e baixo de CBD, daí sua provável contribuição para o aumento de sintomas psicóticos em pessoas propensas à esquizofrenia.

Esquizofrenia

O distúrbio mental é caracterizado quando há perda de contato com a realidade, alucinações (audição de vozes), delírios, pensamentos desordenados, índice reduzido de emoções e alterações nos desempenhos sociais e de trabalho. A esquizofrenia afeta cerca de 1% da população mundial. O tratamento é feito com uso de remédios antipsicóticos, reabilitação e psicoterapia.

Fonte: UNIAD - 06/01/2017

Grupos de mútua-ajuda no Brasil:

Um recurso terapêutico, uma rede disponível

Se valorizarmos o poder destas forças para apoiar a prevenção e o tratamento, será possível desenvolver novos e poderosos caminhos para reduzir o sofrimento causado pelo uso e abuso de drogas.

Qualquer que seja a linha de pensamento seguida pelos profissionais da saúde em relação ao tratamento de pessoas que tenham desenvolvido dependência de substâncias psicoativas, não se despreza a importância dos grupos de autoajuda no trabalho a longo prazo e redução das recidivas.

Infelizmente, está bastante claro que, no Brasil, os grupos de mútua ajuda são subaproveitados. Informações superficiais, livros de difícil acesso, poucos estudos materializam, no meio leigo e acadêmico, uma visão distorcida sobre os chamados Grupos Anônimos ou de mútua ajuda, criando obstáculos para se trabalhar em rede e ajudar o paciente em vários momentos do tratamento.

Grupos_de_mutuaajuda

Grupos_AutoAjuda

FONTE: UNIAD - 20/08/2011

A montanha russa da dependência química

Ser Psicólogo e trabalhar com dependentes químicos muitas vezes assemelha-se a dar uma volta em uma montanha russa, quando somos tomados por inevitável ansiedade e sensação de impotência, uma vez que não temos nenhum controle sobre as ações daquele brinquedo, só nos restando torcer para que tudo acabe bem. Atuar no mundo da dependência química exige do profissional, nervos de aço, já que não é exceção sermos surpreendidos com notícias desagradáveis após um período de franca calmaria.
Dependência química é uma doença bastante complexa e desafiadora para nós profissionais, quer seja pelos agentes determinantes na sua aparição, pela particularidade individual da sua evolução ou pelo intrincado caminho que possa levar à recuperação.
Esta enfermidade faz parte do roll das patologias crônicas, ou seja, seu portador conviverá por toda a vida com essa doença, entretanto isso não significa que não poderá levar uma vida normal, contanto que se abstenha totalmente do consumo de álcool ou qualquer outra droga.
Fatores biológicos, psicológicos e sociais estão no cerne do desenvolvimento desta doença. Predisposição genética, traumas na infância e ambientes permissivos são alguns dos eventos que originam o aparecimento da dependência química.
Em maior ou menor grau, as consequências vivenciadas por seus portadores também são de ordem biopsicossocial. Fisicamente podem sofrer desde uma desnutrição, doenças como diabetes, hipertensão, úlcera, até uma cirrose hepática ou um acidente fatal. Dificuldade para concentrar-se, irritabilidade e transtornos mentais são algumas das consequências psicológicas que a doença pode causar. As consequências sociais referem-se, geralmente, a conflitos familiares ou amorosos, problemas judiciais, baixo rendimento escolar e dificuldades no trabalho.
Em relação ao tratamento, com exceção do aparecimento de algum novo medicamento, nenhuma novidade tem surgido, além das instituições governamentais e de empresas públicas e privadas, as quais têm se mobilizado para encontrarem a melhor forma de prevenir ou minimizar o uso de drogas e suas consequências. Todavia, sobre o tratamento, alguns princípios já são consenso entre os profissionais de saúde que atuam nesta área e, dentre eles, destacam-se: o tratamento não precisa ser voluntário para ser eficaz; um único tipo de tratamento não é indicado para todos os indivíduos; terapias comportamentais são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades para resistir ao uso de drogas; medicações são elemento importante no tratamento de vários pacientes; o envolvimento da família  no tratamento ajuda significativamente; por ser uma doença recorrente, muitas vezes serão necessárias, durante o tratamento, várias intervenções e tentativas de abstinência.  
Somente o profissional que penetra no universo complexo, mas também fascinante, que é o trabalho junto a dependentes químicos e seus familiares, percebe as semelhanças vividas em brincar na montanha russa com seu trabalho. Portanto, da mesma forma que é recomendado o respeito às normas de segurança no parque de diversão, quando se brinca na montanha russa, cabe ao psicólogo sempre agir dentro dos princípios éticos que regem sua profissão, orientando-se por indicações cientificamente comprovadas. Assim os sustos ocorrerão exclusivamente devido aos efeitos causados pelo brinquedo e não em decorrência ao mau uso do mesmo.

Marcos Antonio Manfredini

Publicado em: Gazeta do TATUAPÉ - ZONA LESTE - 9 a 15 de janeiro de 2011

Marcos A. Manfredini fala à Revista IN

Caminho com volta

Drogas: um mal que atinge toda a família
Data: 20/06/2010

A personagem vivida pela atriz Sandra Bullock no filme “28 dias” não via omo um problema o excesso de bebidas alcoólicas que ingeria. Após dirigir embriagada e bater o carro, em plena festa de casamento de sua irmã, ela percebeu o quanto era dependente do álcool e como sua vida havia tomado um caminho completamente diferente do planejado. Disposta a mudar, aceitou o tratamento de 28 dias em uma clínica, ensinando uma grande lição: a importância de pedir ajuda quando não é possível abandonar o vício sozinho.

Um dia para dizer não
No próximo dia 26, será comemorado o Dia Internacional de Combate às Drogas, data que estimula o debate sobre esse problema que afeta a sociedade. O uso desses tipos de substâncias, capazes de alterar as sensações, é antigo; acredita-se que desde a época dos homens das cavernas era recorrente as suas utilizações. Porém, com o passar dos anos, o número de usuários e a quantidade consumida só apresentam crescimento e a epidemia parece estar longe de ser sanada.

Segundo o psicólogo da Clínica Lema: Vida e Saúde, Marcos Antonio Manfredini, existem três classificações de drogas: as estimulantes como cocaína, nicotina e cafeína; depressoras como o álcool e os calmantes; e deturpadoras como a maconha e o LSD. “No início, o usuário busca o prazer, depois que vicia recorre à droga para não sentir o desprazer”, explica.

Problema mundial
A ONU - Organização das Nações Unidas, afirma que o tráfico movimenta U$ 400 bilhões por ano e se tornou uma ameaça global. O relatório do Departamento Internacional de Controle de Narcóticos da ONU trilhou o mapa da droga e apontou que a maior parte vem da América Central e do Caribe.

Na América do Sul houve uma diminuição do nível de produção, mas a Venezuela se tornou uma grande exportadora, inclusive para o Brasil. De acordo com a Organização, mais de 5% dos estudantes brasileiros do Ensino Médio já fizeram uso de drogas.

Abismo crucial
De acordo com Manfredini, a dependência química ocorre em três esferas. Num primeiro momento, o usuário desenvolve uma tolerância ao consumo, fazendo com que precise aumentar sempre as doses. Após essa fase, seus pensamentos giram em torno da droga ou do desejo de experimentar mais ou até de parar; e por fim, a destruição da vida social.

O vício pode ser estabelecido sob diversos aspectos, dentre eles estão o fator genético e os problemas psicológicos, ambientais e psiquiátricos. “A doença é caracterizada por ser multifatorial, ou seja, dois ou mais destes elementos”, ressalta.

No caso do fator genético, há uma predisposição para o desenvolvimento da doença. No psicológico, o indivíduo cresceu num lugar marcado por brigas ou até sofreu algum abuso. Já no ambiental, ele conviveu num lar em que era comum o uso, enquanto no psiquiátrico, a pessoa tem ou está desenvolvendo uma patologia como a Depressão e procura na droga a solução.

Convívio
O especialista afirma que a participação da família na trajetória é fundamental, aumentando, consideravelmente, as chances de sucesso no tratamento. É preciso ficar atento às mudanças de comportamento de entes queridos e, caso não saiba lidar com a situação, faça como a personagem da história e procure ajuda.

Clínica Lema: Vida e Saúde - R. Pe. Estevão Pernet, 160 - Cj. 408 - F: 2769 5233

Crédito da matéria: Revista IN


 

 

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